Principal Um De Nós Está Mentindo

Um De Nós Está Mentindo

5.0 / 5.0
Quanto Você gostou deste livro?
Qual é a qualidade do ficheiro descarregado?
Descarregue o livro para avaliar a sua qualidade
De que qualidade são os ficheiros descarregados?
Um suspense que prenderá o leitor da primeira à última página. Numa tarde de segunda-feira, cinco alunos entram em detenção no colégio Bayview: Bronwyn, a gênia, comprometida a estudar em Yale, Addy, a bela, a definição da princesa do baile de primavera, Nate, o criminoso, já em liberdade condicional por tráfico de drogas, Cooper, o atleta, astro do time de beisebol, e Simon, o pária, criador do mais famoso app de fofocas da escola. Só que Simon não consegue ir embora. Antes do fim da detenção, ele está morto. E, de acordo com os investigadores, a sua morte não foi acidental. Os outros quatro alunos são suspeitos do seu assassinato. Ou eles são as vítimas perfeitas de um assassino que continua à solta? Todo mundo tem segredos, certo? Mas até onde cada um vai para proteger os seus?
Volume:
1
Ano:
2018
Edição:
001
Editora:
Editora Record
Idioma:
portuguese
Páginas:
384
ISBN 13:
9788501114181
Serias:
one
Arquivo:
EPUB, 853 KB
Descargar (epub, 853 KB)

Você pode estar interessado em Powered by Rec2Me

 

Frases chave

 
que3212
para1402
com1153
uma1008
mas840
ele819
ela744
por685
como571
meu428
isso423
mais398
nate395
jake301
foi294
mim256
tudo228
bem227
addy221
ter196
ser189
nos180
tem171
nada166
vai165
diz164
seu161
pelo160
casa157
vez153
pai148
sem142
eles139
4 comments
 
Gossip_girl
Eu adorei o livro. Achei ótimo e n esperava esse final.
02 April 2021 (05:48) 
emanuelly de freitas piranga
no meio do livro ja suspeitava do plot do livro
30 May 2021 (08:49) 
augusta
nao vou dizer que é um mau livro, mas não chega a ser ótimo. Pela sinopse, esperava uma trama diferente ou até mesmo uma construção diferente. Aliás, há gatilhos nesse livro e eles não foram sinalizados, cuidado se você já sofreu abuso em relacionamentos.
04 July 2021 (00:58) 
Linwu
Gostei do livro por algumas reviravoltas ocorridas, mas ele é um livro teen que agrada o suficiente o público ao qual se dirige. Gosto de romance e um certo casal do livro foi o que, na minha opinião, salvou ele de seus clichês pelo fato do relacionamento entre esses pombinhos ser mais racional e verdadeiro.
01 August 2021 (05:56) 

To post a review, please sign in or sign up
Você pode deixar uma resenha sobre o livro e compartilhar sua experiência, outros leitores ficarão interessados em saber sua opinião sobre os livros que você leu. Independentemente de você gostar ou não, a contar honestamente e detalhado, ajuda as pessoas encontrar livros novos para si mesmas que as interessem.
1

Um Trabalho Sujo

Year:
2017
Language:
portuguese
File:
EPUB, 536 KB
0 / 0
2

O saci (edição de luxo)

Year:
2017
Language:
portuguese
File:
EPUB, 5.54 MB
0 / 0
ÍNDICE


Capa

Rosto

Créditos

Dedicatória

Sumário

Parte Um Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9





Parte Dois Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18





Parte Três Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30





Epílogo

Agradecimentos

Um de nós está mentindo

Colofon





Guide


Sumário

Sumário





Tradução

André Gordirro





1ª edição





Rio de Janeiro | 2018





CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M429d

McManus, Karen M.

Um de nós está mentindo [recurso eletrônico] / Karen M. McManus ; tradução André Gordirro. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Galera, 2018.

recurso digital

Tradução de: One of us is lying

Formato: epub

Requisitos do sistema: adobe digital editions

Modo de acesso: world wide web

ISBN 978-85-011-1418-1 (recurso eletrônico)

1. Ficção infantojuvenil americana. 2. Livros eletrônicos. I. Gordirro, André. II. Título.

18-47009

CDD: 028.5

CDU: 087.5

Título original:

One of us is lying

Copyright © 2017 por Karen M. McManus

Copyright da edição em português © 2017 por Editora Record LTDA.

Publicado mediante acordo com a Lennart Sane Agency AB.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos são produto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com eventos, lugares ou pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Todos os direitos reservados.

Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais do autor foram assegurados.

Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Editoração eletrônica da versão impressa: Abreu’s System

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela

EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 2; 0921-380 – Tel.: (21) 2585-2000, que se reserva a propriedade literária desta tradução.

Produzido no Brasil



ISBN 978-85-011-1418-1

Seja um leitor preferencial Record.

Cadastre-se e receba informações sobre nossos

lançamentos e nossas promoções.

Atendimento e venda direta ao leitor:

mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002.





Para Jack,

que sempre me faz rir.





SUMÁRIO

Parte Um

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Parte Dois

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Parte Três

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Epílogo

Agradecimentos





PARTE UM

LÁ VEM TEXTÃO DO SIMON





CAPÍTULO 1


Bronwyn

Segunda-feira, 24 de setembro, 14h55

Uma sex tape. Alguém com medo de ter ficado grávida. Dois escândalos envolvendo traições. E essa é apenas a atualização das notícias da semana. Se tudo que você soubesse a respeito do Colégio Bayview viesse do aplicativo de fofoca de Simon Kelleher, você se perguntaria como alguém ainda poderia ter tempo de assistir às aulas.

— Isso é notícia velha, Bronwyn — diz uma voz pelas minhas costas. — Espere até ver o post de amanhã.

Droga. Eu odeio ser flagrado lendo Falando Nisso, especialmente pelo criador do aplicativo. Abaixo o celular e bato a porta do armário.

— Vai arruinar a vida de quem agora, Simon?

Simon passa a me acompanhar assim que vou contra o fluxo de alunos a caminho da saída.

— É um serviço de utilidade pública — responde ele, com um gesto de desdém. — Você é tutora do Reggie Crawley, né? Não seria melhor saber que ele tem uma câmera no quarto?

Nem me dou ao trabalho de responder. Eu chegar perto do quarto de Reggie Crawley, aquele eterno maconheiro, é tão provável de acontecer quanto Simon adquirir alguma consciência.

— De qualquer forma, a culpa é das pessoas. Se elas não mentissem e traíssem, eu estaria na rua. — Os frios olhos azuis de Simon perceberam meus passos longos. — Para onde você está correndo? Vai se cobrir de glória extracurricular?

Quem me dera. Como se para me zoar, um alerta pisca no meu telefone: Treino para a Olimpíada de Matemática, 15h, Café Epoch. Seguido de uma mensagem de um dos meus colegas de equipe: Evan está aqui.

Claro que está. O atleta gatinho de matemática — um paradoxo menor do que você imagina — só parece dar as caras quando eu não posso.

— Não exatamente — respondo.

Como regra, e especialmente nos últimos dias, tento fornecer o mínimo de informação possível para Simon. Nós passamos por portas verdes de metal em direção à escadaria dos fundos, uma linha divisória entre o ambiente sombrio do Colégio Bayview original e o novo anexo iluminado e arejado. A cada ano, mais famílias ricas saem de San Diego por causa do aumento do custo de vida na cidade e se mudam para Bayview, 25 quilômetros a leste, na esperança de que seus impostos paguem por uma educação melhor do que colégios com teto chapiscado e linóleo arranhado.

Simon continua na minha cola quando chego ao laboratório do Sr. Avery no terceiro andar, e dou meia-volta com os braços cruzados.

— Você não tem que estar em algum lugar?

— É, na detenção — diz Simon, que me espera continuar a andar. Quando pego a maçaneta em vez disso, ele cai na gargalhada. — Você está me zoando. Você também? O que você fez?

— Fui acusada injustamente — murmurei, e abri a porta com força.

Já havia três outros alunos sentados. Paro para observá-los. Não era o grupo que eu teria previsto. A não ser por um nome.

Nate Macauley inclina a carteira para trás e dá um risinho irônico para mim.

— Entrou no lugar errado? Aqui é a detenção, não o conselho estudantil.

Ele bem sabia disso. Nate se metia em confusões desde o quinto ano, que é mais ou menos a época em que nos falamos pela última vez. A corrente de fofocas me diz que Nate está sob liberdade condicional concedida pela polícia de Bayview por… alguma coisa. Pode ter sido por dirigir embriagado; pode ter sido por tráfico de entorpecentes. Ele é um conhecido fornecedor, mas meu conhecimento é puramente teórico.

— Poupe seus comentários. — O Sr. Avery risca alguma coisa na prancheta e fecha a porta quando Simon entra.

Janelas altas e arqueadas na parede dos fundos lançam triângulos de luz solar vespertina no chão, e ruídos do treino de futebol flutuam vindos do campo atrás do estacionamento.

Eu me sento quando Cooper Clay, que segura um pedaço de papel amassado como se fosse uma bola de beisebol, sussurra “se liga, Addy” e joga o papel na direção de uma garota sentada em frente a ele. Addy Prentiss pisca, sorri vagamente e deixa a bolinha cair no chão.

O relógio da sala de aula se arrasta em direção às três, e eu sigo o avanço com uma sensação impotente de injustiça. Eu nem sequer deveria estar ali. Deveria estar no Café Epoch, flertando sem jeito com Ewan Neiman diante de equações diferenciais.

O Sr. Avery é um sujeito do tipo detenção-primeiro-perguntas-nunca, mas talvez ainda houvesse tempo para fazê-lo mudar de opinião. Eu pigarreio e começo a erguer a mão quando noto o risinho de Nate se alargando.

— Sr. Avery, aquele celular que o senhor encontrou não era meu. Não sei como foi parar na minha mochila. Este é o meu — expliquei a ele, brandindo meu iPhone com capinha listrada cor de melão.

Honestamente, a pessoa tinha que ser sem noção para levar um telefone para o laboratório do Sr. Avery. Ele mantém uma rígida política de proibição de uso de celulares e passa os primeiros dez minutos de cada aula vasculhando mochilas, como se fosse o chefe de segurança de uma companhia aérea e nós todos estivéssemos na lista de suspeitos. Meu celular estava no meu armário, como sempre.

— Você também? — Addy se vira para mim tão rapidamente que o cabelo lavado com xampu esvoaça em volta dos ombros. Ela deve ter sido separada cirurgicamente do namorado para ter aparecido sozinha. — Aquele também não era o meu telefone.

— Comigo são três — emenda Cooper.

O sotaque sulista faz o três parecer outra coisa. Addy e ele trocam olhares surpresos, e eu me pergunto como isso pode ser novidade se os dois fazem parte da mesma panelinha. Talvez pessoas superpopulares como eles tenham coisas melhores para conversar do que detenções injustas.

— Alguém nos sacaneou! — Simon se inclina à frente com os cotovelos na mesa, parecendo uma mola encolhida e pronto para dar o bote em uma fofoca fresquinha. Seu olhar passa por nós quatro, reunidos no meio de uma sala de aula praticamente vazia, antes de se concentrar em Nate. — Por que alguém ia querer prender na sala de detenção um bando de alunos com fichas praticamente limpas? Parece o tipo de coisa que, ah, sei lá, um cara que está aqui o tempo todo faria para se divertir.

Eu olho para Nate, mas não consigo imaginar aquilo. Manipular uma detenção significa ter algum trabalho, e tudo a respeito de Nate — desde os cabelos escuros e desgrenhados à jaqueta de couro surrada — diz bem claramente não estou nem aí. Ele sustenta meu olhar, mas não diz uma palavra, apenas inclina a cadeira mais para trás. Outro milímetro e Nate vai cair.

Cooper se endireita na cadeira e franze seu rosto de Capitão América.

— Esperem aí. Eu achei que isso fosse apenas um engano, mas, se a mesma coisa aconteceu com todos nós, então é uma pegadinha idiota feita por alguém. E estou perdendo o treino de beisebol por causa disso. — Ele fala como se fosse um cirurgião cardíaco que foi detido e estivesse perdendo uma operação para salvar vidas.

O Sr. Avery revira os olhos.

— Guardem as teorias conspiratórias para outro professor. Eu não vou acreditar. Todos conhecem as regras sobre trazer telefones para a sala de aula, e vocês infringiram essas regras. — Ele lança um olhar especialmente feio para Simon. Os professores sabem que o Falando Nisso existe, mas não há muito o que possam fazer para impedir o aplicativo. Simon usa apenas iniciais para identificar as pessoas, e nunca fala abertamente sobre o colégio. — Agora prestem atenção. Vocês ficarão aqui até às quatro da tarde. Quero que cada um faça uma redação de quinhentas palavras sobre como a tecnologia está arruinando os colégios nos Estados Unidos. Quem não cumprir as regras leva outra detenção amanhã.

— Com o que a gente vai escrever? — pergunta Addy. — Não tem computador aqui.

A maioria das salas tinha notebooks, mas o Sr. Avery, que aparentemente já poderia estar aposentado há uma década, é um dinossauro.

O Sr. Avery vai até a mesa de Addy e bate com o dedo na ponta de um bloco pautado amarelo. Todos nós temos um igual.

— Explore a magia da caligrafia. É uma arte perdida.

O rosto bonito e em formato de coração de Addy parece uma máscara de confusão.

— Mas como vamos saber que chegamos às quinhentas palavras?

— Contem — responde o Sr. Avery. Os olhos descem para o telefone que ainda estou segurando. — E me dê isso aqui, Srta. Rojas.

— O fato de o senhor estar confiscando meu celular duas vezes não lhe faz parar para pensar? Quem tem dois telefones? — pergunto. Nate sorri, tão rápido que quase deixo de ver. — Sério, Sr. Avery, alguém está pregando uma peça na gente.

O bigode branco do Sr. Avery estremece de irritação, e ele estende a mão, gesticulando.

— O telefone, Srta. Rojas. A não ser que queira voltar aqui outra vez. — Eu entrego o celular suspirando enquanto ele olha os demais com reprovação. — Os celulares que confisquei do restante de vocês estão na minha mesa. Vocês pegarão os aparelhos de volta após a detenção.

Addy e Cooper trocam olhares, achando graça, provavelmente porque seus verdadeiros telefones estão em segurança nas mochilas.

O Sr. Avery joga meu celular em uma gaveta, se senta atrás de sua mesa e abre um livro enquanto se prepara para nos ignorar pela próxima hora. Eu pego uma caneta, bato no bloco amarelo e contemplo a tarefa. Será que o Sr. Avery realmente acredita que a tecnologia está arruinando as escolas? É uma declaração um pouco forte para se fazer por causa de alguns telefones contrabandeados. Talvez seja uma armadilha, e ele esteja esperando que a gente o contradiga, em vez de concordar.

Dou uma olhadela em Nate, que está debruçado sobre o bloco, escrevendo computadores são uma merda sem parar, em letras garrafais.

Talvez eu esteja me preocupando demais com isso.


Cooper

Segunda-feira, 24 de setembro, 15h05

Minha cabeça começa a doer em poucos minutos. É ridículo, eu acho, mas não consigo me lembrar da última vez que escrevi qualquer coisa a mão. Para piorar, estou usando a mão direita, que nunca parece natural, embora eu já faça isso há muitos anos. Meu pai insistiu que eu aprendesse a escrever com a mão direita no segundo ano depois de me ver no campo de beisebol. Seu braço esquerdo vale ouro, disse ele. Não desperdice com porcarias que não valem a pena. O que vêm a ser qualquer coisa que não seja jogar beisebol, na opinião dele.

Foi quando meu pai começou a me chamar de Cooperstown, como o famoso jogador de beisebol. Nada como colocar um peso desses num menino de 8 anos.

Simon mete a mão dentro da mochila e vasculha tudo, abrindo cada divisória. Ele a coloca no colo e olha o interior.

— Onde diabos está minha garrafa d’água?

— Sem conversa, Sr. Kelleher — avisa o Sr. Avery sem erguer os olhos.

— Eu sei, mas minha garrafa d’água… sumiu. E estou com sede.

O Sr. Avery aponta para a pia no fundo da sala, com a bancada cheia de recipientes e tubos de ensaio.

— Vá beber água. Em silêncio.

Simon se levanta, pega um copo da pilha na bancada e o enche de água da torneira. Ele volta para o lugar e coloca o copo na mesa, mas parece distraído com a escrita metódica de Nate.

— Cara — diz Simon ao chutar com o tênis o pé da mesa de Nate —, falando sério, você colocou aqueles telefones nas nossas mochilas pra zoar com a gente?

Agora o Sr. Avery ergue os olhos e franze a testa.

— Eu disse em silêncio, Sr. Kelleher.

Nate se reclina e cruza os braços.

— Por que eu faria isso?

Simon dá de ombros.

— Por que você faz qualquer coisa? Pra você ter companhia na treta do dia?

— Mais uma palavra da parte de qualquer um de vocês e vai ter detenção amanhã — alerta o Sr. Avery.

Simon abre a boca mesmo assim, mas, antes que consiga falar, surge o som de pneus guinchando e depois a colisão entre dois carros. Addy contém um gritinho de susto, e me seguro na mesa, como se alguém tivesse acabado de se chocar comigo pelas costas. Nate, que parece contente com a interrupção, é o primeiro a ficar de pé e ir à janela.

— Quem bate o carro no estacionamento do colégio?

Bronwyn olha para o Sr. Avery, como se estivesse pedindo permissão, e, quando ele se levanta da mesa, ela também corre para janela. Addy segue Bronwyn, e finalmente saio da minha carteira. Melhor ver o que está acontecendo. Eu me apoio no peitoril para espiar lá fora, e Simon surge ao meu lado com uma risada debochada ao ver a cena abaixo.

Dois carros, um vermelho velho e um cinza genérico, estão enfiados um no outro em um ângulo reto. Todos olhamos fixamente em silêncio até o Sr. Avery soltar um suspiro exasperado.

— Melhor eu verificar se alguém se machucou. — Ele passa os olhos por todos nós e para em Bronwyn, a mais responsável do grupo. — Srta. Rojas, mantenha esta sala sob controle até eu voltar.

— Ok — responde Bronwyn, que lança um olhar nervoso para Nate.

Nós permanecemos na janela, vendo a cena lá embaixo, mas, antes que o Sr. Avery ou outro professor apareça fora do colégio, ambos os carros dão partida e saem do estacionamento.

— Bem, isso foi sem graça — diz Simon.

Ele volta para a mesa e pega o copo, mas, em vez de se sentar, vai até a frente da sala e examina o pôster com a tabela periódica de elementos. Simon enfia a cara no corredor, como se estivesse prestes a ir embora, mas a seguir se vira e ergue o copo em um brinde.

— Alguém quer água?

— Eu quero — responde Addy ao se sentar.

— Pegue você mesma, princesa — diz Simon, com um sorrisinho. Addy revira os olhos e não sai do lugar enquanto Simon se debruça sobre a mesa do Sr. Avery. — Literalmente, hein? O que você vai fazer agora que o baile já passou? É uma grande lacuna até a festa de formatura do terceiro ano.

Addy olha para mim sem responder. Eu não a culpo. A linha de raciocínio de Simon nunca leva a um lugar bom quando se refere aos nossos amigos. Ele age como se não se importasse em ser popular, mas ficou bastante convencido quando acabou fazendo parte do conselho da festa de formatura do ensino médio, na primavera passada. Ainda não sei como Simon conseguiu aquilo, mas talvez ele tenha comprado alguns votos com o seu silêncio.

Entretanto, Simon não foi visto no conselho do baile na semana anterior. Eu fui eleito rei, então talvez esteja na próxima lista de Simon para ser sacaneado ou seja lá que diabos ele esteja fazendo.

— O que você quer dizer, Simon? — pergunto ao me sentar ao lado de Addy.

Ela e eu não somos exatamente íntimos, mas eu meio que me sinto como protetor de Addy. Ela namora o meu melhor amigo desde o primeiro ano, e é gente boa. E também não é o tipo de pessoa que sabe enfrentar um cara insistente como o Simon.

— Ela é uma princesa, e você, um atleta — responde ele, apontando o queixo para Bronwyn e depois para Nate. — E você é um crânio. E também um criminoso. Vocês todos são estereótipos ambulantes de filmes de adolescente.

— E quanto a você? — pergunta Bronwyn.

Ela andou pairando pela janela, mas agora foi à mesa e se empoleirou em cima. Bronwyn cruzou as pernas e puxou o rabo de cavalo escuro sobre o ombro. Algo nela está mais bonito neste ano. Óculos novos, talvez? Cabelo mais comprido? De repente, Bronwyn está investindo nesse lance de nerd sexy.

— Eu sou o narrador onisciente — responde Simon.

As sobrancelhas de Bronwyn subiram acima da armação escura do óculos.

— Não existe isso nos filmes de adolescente.

— Ah, mas, Bronwyn — Simon pisca e toma a água em um gole só —, existe uma coisa assim na vida real.

Ele diz quase em ameaça, e eu me pergunto se Simon tem algum segredo de Bronwyn naquele aplicativo idiota. Eu odeio aquele troço. Quase todos os meus amigos apareceram no aplicativo em algum momento, e às vezes ele causa problemas de verdade. Meu amigo Luis e a namorada terminaram por causa de uma coisa que Simon escreveu. Embora fosse uma história real sobre Luis ter ficado com a prima da namorada, mas, ainda assim. Esse tipo de coisa não precisa ser publicada. As fofocas de corredor já são suficientemente ruins.

E, sendo honesto, estou bem preocupado com o que Simon poderia escrever sobre mim se decidisse fazer isso.

Simon ergue o copo com uma careta.

— Que gosto de merda.

Ele deixa o copo cair, e eu reviro os olhos diante da sua tentativa de fazer drama. Mesmo quando o líquido cai no chão, ainda acho que Simon está de zoação. Mas aí começa a respiração ofegante.

Bronwyn é a primeira a ficar de pé e depois se ajoelha ao seu lado.

— Simon — chama ela, enquanto lhe balança o ombro. — Você está bem? O que aconteceu? Consegue falar?

A voz de Bronwyn vai da preocupação ao pânico, e é o suficiente para eu me colocar em ação. Mas Nate é mais rápido, me empurra para passar e se ajoelha do lado de Bronwyn.

— Uma caneta — pede ele, enquanto os olhos vasculham o rosto de Simon, vermelho como tijolo. — Tem uma caneta?

Simon faz que sim com a cabeça freneticamente, e sua mão arranha o próprio pescoço. Eu pego a caneta da minha mesa e tento passá-la para Nate, pensando que ele está prestes a fazer uma traqueostomia de emergência ou algo do gênero. Nate apenas me encara, como se eu tivesse duas cabeças.

— Uma caneta de adrenalina — diz Nate procurando pela mochila de Simon. — Ele está tendo uma reação alérgica.

Addy fica em pé e abraça o próprio corpo, sem dizer uma palavra. Bronwyn se vira para mim, com o rosto corado.

— Vou achar um professor e ligar para a emergência. Fique com ele, ok? — Bronwyn pega o telefone da gaveta do Sr. Avery e dispara para o corredor.

Eu me ajoelho ao lado de Simon. Seus olhos estão esbugalhados, os lábios arroxeados, e ele emite sons horríveis de sufocamento. Nate joga o conteúdo inteiro da mochila de Simon no chão e vasculha a confusão de livros, papéis e roupas.

— Simon, onde você guarda a caneta? — pergunta ele ao abrir o pequeno compartimento frontal e arrancar duas canetas normais e um molho de chaves.

Porém, Simon já passou muito da fase de conseguir falar. Eu coloco uma palma da mão suada no seu ombro, como se isso fosse fazer algum bem.

— Você está bem, vai ficar bem. Estamos chamando ajuda. — Ouço minha voz desacelerando e engrossando como melado. Meu sotaque sempre sai forte quando estou estressado. Eu me viro para Nate e pergunto: — Tem certeza de que ele não está sufocando com alguma coisa?

Talvez Simon precise de uma manobra de Heimlich, não da porcaria de uma caneta médica.

Nate me ignora e joga a mochila vazia de Simon para o lado.

— Porra! — berra ele ao esmurrar o chão. — Você guarda a caneta no corpo, Simon? Simon!

Os olhos de Simon reviram enquanto Nate vasculha os bolsos do garoto, mas não encontra nada além de um lenço de papel amassado.

Sirenes berram ao longe quando o Sr. Avery e dois outros professores entram correndo, seguidos por Bronwyn, que fala ao telefone.

— Não conseguimos encontrar a caneta de adrenalina dele — explica Nate resumidamente ao gesticular para a pilha de coisas de Simon.

O Sr. Avery encara Simon de queixo caído e horrorizado por um segundo, depois se volta para mim.

— Cooper, há canetas de adrenalina na sala da enfermeira. Elas devem estar etiquetadas e bem à vista. Depressa!

Eu disparo para o corredor e ouço passos atrás de mim que desaparecem conforme eu chego rapidamente à escadaria dos fundos e escancaro a porta. Desço três degraus por vez até chegar ao primeiro andar, e costuro entre alguns estudantes retardatários até chegar à sala da enfermeira. A porta está entreaberta, mas não há ninguém ali.

A sala é apertada, com a mesa de exame diante das janelas e um grande armário cinza que se agiganta à esquerda. Eu passo os olhos pela sala, e eles param em duas caixas brancas instaladas na parede com letras vermelhas garrafais. Uma diz Desfibrilador de Emergência, e a outra Adrenalina de Emergência. Eu me atrapalho com o ferrolho da segunda caixa e o abro.

Não tem nada dentro.

Abro outra caixa, que tem um aparelho de plástico com o desenho de um coração. Tenho certeza de que não é aquilo, então começo a vasculhar o armário cinza, tirando caixas de bandagens e aspirina. Não vejo nada que se pareça com uma caneta.

— Cooper, encontrou as canetas? — A Sra. Grayson, que havia entrado no laboratório com o Sr. Avery e Bronwyn, irrompe na sala, ofegante e com a mão na lateral do corpo.

Eu gesticulo para a caixa vazia na parede.

— Elas deveriam estar ali, né? Mas não estão.

— Veja no armário — instrui a Sra. Grayson, ignorando as caixas de Band-Aid espalhadas pelo chão, que provam que já tentei isso.

Outro professor se junta a nós, e reviramos a sala enquanto a sirene se aproxima. Quando abrimos o último armário, a Sra. Grayson seca um filete de suor da testa com as costas da mão.

— Cooper, avise ao Sr. Avery de que não encontramos nada ainda. O Sr. Contos e eu vamos continuar procurando.

Chego ao laboratório do Sr. Avery no mesmo momento que os paramédicos. Há três deles em uniformes da Marinha, dois empurrando uma maca branca, e um correndo à frente para abrir espaço na pequena multidão que está reunida em volta da porta. Espero até que todos estejam na sala, e entro de mansinho. O Sr. Avery está curvado ao lado do quadro-negro, com a camisa social amarela para fora da calça.

— Não conseguimos encontrar as canetas — digo a ele.

O professor passa a mão trêmula pelo cabelo branco ralo quando um dos paramédicos dá uma injeção em Simon e os outros dois o colocam na maca.

— Que Deus ajude esse garoto — sussurra o Sr. Avery, mais para si mesmo do que para mim, imagino.

Addy está ao lado, sozinha na dela, com lágrimas escorrendo pela face. Cruzo o laboratório até ela e coloco o braço em seus ombros quando os paramédicos empurram a maca de Simon até o corredor.

— O senhor pode vir junto? — pergunta um deles para o Sr. Avery.

Ele concorda com a cabeça e vai atrás, deixando o laboratório vazio, a não ser por alguns professores abalados e nós quatro, que havíamos começado a detenção com Simon.

Foi só há uns quinze minutos, eu acho, mas parece que foram horas.

— Ele está bem agora? — pergunta Addy, com um tom contido.

Bronwyn está com o telefone entre as mãos, como se usasse o aparelho para rezar. Nate está parado com as mãos na cintura, olhando fixamente para a porta conforme mais professores e alunos entram.

— Eu arrisco dizer que não — respondo.





CAPÍTULO 2


Addy

Segunda-feira, 24 de setembro, 15h25

Bronwyn, Nate e Cooper estão conversando com os professores, mas eu não consigo. Preciso de Jake. Tiro o celular da mochila para mandar uma mensagem a ele, mas minhas mãos estão tremendo demais. Então, resolvo ligar.

— Amor?

Ele atende no segundo toque, parecendo surpreso. Não usamos muito o celular para ligações. Nenhum dos nossos amigos o faz. Às vezes, quando estou com Jake e o telefone toca, ele levanta e brinca: “O que quer dizer ‘chamada recebida’?” Geralmente é sua mãe.

— Jake. — É tudo que consigo dizer antes de começar a chorar. O braço de Cooper ainda está nos meus ombros, e é a única coisa que me mantém de pé. Estou chorando demais para falar, e Cooper tira o telefone da minha mão.

— Ei, cara, é Cooper — diz ele, com o sotaque mais acentuado do que o normal. — Onde você está? — Cooper escuta por alguns segundos. — Pode encontrar a gente lá fora? Houve… Rolou um lance. Addy está realmente abalada. Não, ela está bem, mas… Simon Kelleher passou mal aqui na detenção. A ambulância o levou; nem sabemos se vai ficar bem.

As palavras de Cooper derretem umas nas outras, como sorvete, e eu mal consigo compreendê-lo.

Bronwyn se volta para a professora mais próximo, a Sra. Grayson.

— Devemos ficar? A senhora precisa da gente?

A Sra. Grayson leva a mão à garganta.

— Meu bom Deus, acho que não. Vocês contaram tudo para os paramédicos? Simon… bebeu um gole d’água e entrou em colapso? — Bronwyn e Cooper concordam com a cabeça. — É tão estranho. Ele tem alergia a amendoim, é claro, mas… vocês têm certeza de que ele não comeu nada?

Cooper devolve meu celular e passa a mão pelo cabelo castanho-claro com um corte escovinha meticuloso.

— Acho que não. Ele só bebeu um copo d’água e desmoronou.

— Talvez tenha sido algo que Simon comeu no almoço — arrisca a professora. — É possível que ele tenha tido uma reação atrasada. — Ela olha em volta da sala e se detém no copo de Simon, jogado no chão. — Acho melhor nós guardarmos isso — avisa a professora, enquanto passa por Bronwyn para pegá-lo. — Alguém pode querer examinar o copo.

— Eu quero ir embora — falo de supetão, limpando as lágrimas. Não aguento ficar mais um segundo naquela sala.

— Tudo bem se eu ajudar Addy? — pergunta Cooper, e a Sra. Grayson concorda com a cabeça. — Preciso voltar?

— Não, tudo bem, Cooper. Tenho certeza de que vão te chamar se precisarem de você. Vá para casa e tente voltar ao normal. Simon está em boas mãos agora. — Ela se debruça um pouco mais perto, e o tom de voz abranda. — Sinto muito mesmo. Deve ter sido horrível.

A professora fixa o olhar em Cooper, entretanto. Não há uma professora no Colégio Bayview que resista ao seu charme tipicamente norte-americano.

Cooper mantém o braço nos meus ombros ao sairmos. É bom. Eu não tenho irmãos, mas, se tivesse, imagino que seria assim que eles me apoiariam quando me sentisse mal. Jake não gostaria de ver a maioria dos amigos assim perto de mim, mas com Cooper não havia problema. Ele é um cavalheiro. Eu me apoio nele enquanto passamos pelos pôsteres do baile da semana passada que ainda não foram retirados. Cooper empurra a porta da frente para abri-la, e lá, graças a Deus, está Jake.

Eu desmorono nos seus braços, e por um segundo tudo está bem. Jamais vou esquecer quando vi Jake pela primeira vez, no primeiro ano: ele usava aparelhos nos dentes e ainda não tinha ganhado altura e ombros largos, mas bastou olhar para as covinhas e os olhos azuis da cor do céu de verão que eu soube. Jake era o cara certo para mim. Ele ter ficado bonito foi apenas um bônus.

Ele faz carinho no meu cabelo enquanto Cooper explica em voz baixa o que aconteceu.

— Meu Deus, Ads — diz Jake. — Que horrível. Vamos para casa.

Cooper vai embora sozinho, e, de repente, fico triste por não ter feito mais por ele. Pelo tom de voz de Cooper, sei que ele está tão surtado quanto eu, apenas escondendo melhor. Mas Cooper é um garoto de ouro, ele pode aguentar qualquer coisa. A namorada de Cooper, Keely, é uma das minhas melhores amigas e o tipo de garota que faz tudo certo. Ela vai saber exatamente como ajudar. Bem melhor do que eu.

Entro no carro de Jake e vejo a cidade passar como um borrão enquanto ele dirige um pouco rápido demais. Moro a menos de 2 quilômetros do colégio, e o trajeto de carro é curto, mas me preparo para a reação da minha mãe, porque tenho certeza de que ela já sabe. Seus canais de comunicação são misteriosos, porém à prova de falhas, e de fato ela está parada na nossa varanda quando Jake estaciona na garagem. Consigo perceber o estado de espírito dela ainda que o Botox tenha congelado suas expressões há muito tempo.

Espero Jake abrir a porta para eu sair do carro e me coloco embaixo do seu braço como sempre. Minha irmã mais velha, Ashton, gosta de fazer piada dizendo que eu sou uma daquelas cracas que morreria com o hospedeiro. Não é assim tão engraçado.

— Adelaide! — A preocupação da minha mãe é teatral. Ela estica a mão enquanto subimos os degraus, e faz carinho no meu braço. — Me conte o que aconteceu.

Eu não quero contar. Especialmente não com o namorado da minha mãe à espreita na porta atrás dela, fingindo que a curiosidade é preocupação genuína. Justin é doze anos mais novo que minha mãe, o que o torna cinco anos mais jovem do que o segundo marido, e quinze anos mais novo do que meu pai. Nesse ritmo, capaz de ela namorar Jake em seguida.

— Está tudo bem — murmuro, desviando deles. — Estou bem.

— Ei, Sra. Calloway — diz Jake. Minha mãe usa o sobrenome do segundo marido, não o do meu pai. — Vou levar Addy para o quarto. Aquilo tudo foi horrível. Eu posso contar para a senhora depois que ela estiver mais tranquila.

Eu sempre me espanto com a forma como Jake fala com minha mãe, como se fossem iguais.

E ela permite. Gosta disso.

— É claro — concede minha mãe, com um sorriso afetado.

Ela acha que Jake é bom demais para mim. Vem me dizendo isso desde o segundo ano, quando ele ficou supergostoso e eu continuei a mesma. Minha mãe costumava inscrever Ashton e eu em concursos de beleza quando éramos pequenas, sempre com os mesmos resultados para nós duas: terceira colocada. Princesa do baile, nunca rainha. Não exatamente ruim, mas não suficientemente boa para atrair e manter o tipo de homem que possa cuidar da pessoa pelo resto da vida.

Eu nem sei se isso algum dia foi colocado como um objetivo ou coisa do gênero, mas é o que devemos fazer. Minha mãe fracassou. Ashton está fracassando no casamento de dois anos com um marido que abandonou a faculdade de Direito e mal passa tempo com ela. Alguma coisa a respeito das irmãs Prentiss não conseguirem segurar os homens.

— Foi mal — murmuro para Jake ao subirmos a escada. — Não lidei bem com aquilo. Você deveria ter visto Bronwyn e Cooper. Eles foram demais. E Nate… meu Deus. Eu nunca pensei que veria Nate Macauley tomar conta da situação daquela maneira. Fui a única inútil.

— Shhh, não fale assim — diz Jake, com o rosto afundado no meu cabelo. — Não é verdade.

Ele fala em tom de fim de discussão porque se recusa a ver qualquer coisa que não seja o melhor em mim. Se isso algum dia mudar, eu honestamente não sei o que faria.


Nate

Segunda-feira, 24 de setembro, 16h

Quando Bronwyn e eu chegamos, o estacionamento está praticamente vazio, e nós hesitamos assim que saímos pela porta. Conheço Bronwyn desde o jardim de infância, tirando alguns anos do ensino médio, mas não andamos juntos exatamente. Ainda assim, não é estranho estar com ela ao meu lado. Quase reconfortante após o desastre do andar de cima.

Bronwyn olha ao redor, como se tivesse acabado de acordar.

— Eu não dirigi — murmura ela. — Eu deveria ter pegado uma carona. Para o Café Epoch.

Algo na forma como Bronwyn diz aquilo parece importante, como se houvesse mais detalhes na história que ela não estava compartilhando. Tenho assuntos a resolver, mas provavelmente não seja a melhor hora.

— Quer uma carona?

Bronwyn acompanha meu olhar até a moto.

— É sério? Eu não sentaria nessa armadilha nem que você me pagasse. Você conhece a estatística de acidentes fatais? Não é brincadeira.

Ela parece prestes a puxar uma planilha e me mostrar.

— Você que sabe.

Eu deveria abandoná-la e ir embora, mas ainda não estou pronto para encarar minha casa. Eu me encosto no prédio e tiro um cantil de Jim Beam do bolso da jaqueta, abro a tampa e ofereço para Bronwyn.

— Vai uma bebida?

Ela cruza os braços.

— Você está brincando? Essa é sua brilhante ideia antes de subir nessa máquina de destruição? E dentro do colégio?

— Você é engraçada, sabia?

Eu não bebo muito, na verdade; peguei o frasco do meu pai hoje de manhã e esqueci. Mas irritar Bronwyn é de certa forma gratificante.

Estou prestes a guardar o cantil no bolso quando ela franze a testa e estica a mão.

— Que se dane.

Bronwyn se encosta na parede de tijolos vermelhos ao meu lado e vai escorregando lentamente até o chão. Por algum motivo, tenho uma lembrança do ensino fundamental, quando Bronwyn e eu frequentávamos o mesmo colégio religioso. Antes de a vida ir completamente para o inferno. Todas as garotas de uniforme com saias plissadas, e agora Bronwyn está com uma saia igual, que sobe até as coxas quando ela cruza as pernas. Não é uma visão ruim.

Ela bebe por um tempo longo e surpreendente.

— O quê. Acabou. De acontecer?

Eu me sento ao seu lado, pego o cantil e o coloco no chão entre nós.

— Não faço ideia.

— Ele parecia à beira da morte. — As mãos de Bronwyn tremem tanto que, quando ela pega novamente o cantil, ele faz um barulho contra o chão. — Você não acha?

— É — respondo, enquanto Bronwyn toma outro gole e faz uma careta.

— Pobre Cooper — diz ela. — Ele parece que saiu da roça ontem. Sempre fica assim quando está nervoso.

— Eu não tenho como dizer. Mas aquela sei-lá-quem foi inútil.

— Addy. — O ombro de Bronwyn me cutuca de leve. — Você deveria saber o nome dela, Nate.

— Por quê?

Eu não consigo pensar em um bom motivo. Aquela garota e eu mal nos cruzamos antes de hoje, e provavelmente jamais nos cruzaremos de novo. Tenho certeza de que não há problema quanto a isso para os dois. Eu conheço o tipinho. Não tem nada na cabeça a não ser o namorado e seja lá que jogada mesquinha de poder esteja rolando com os amigos nesta semana. Bem gostosinha, mas sei lá, tirando isso, não tem nada a oferecer.

— Porque todos nós passamos por um grande trauma juntos — responde Bronwyn, como se isso resolvesse a situação.

— Você tem um monte de regras, não é?

Eu me esqueci de como Bronwyn é cansativa. Mesmo no ensino fundamental, o monte de besteiras com que ela se importava diariamente deixaria qualquer pessoa normal esgotada. Bronwyn sempre queria participar das coisas ou criá-las para que outras pessoas participassem. E aí tentava assumir o comando de todas as coisas que ela criava ou de que passava a participar.

Mas Bronwyn não é entediante. Isso eu tenho que admitir.

Ficamos sentados em silêncio, observando os últimos carros saírem do estacionamento, enquanto Bronwyn bebe do cantil de vez em quando. Quando finalmente tiro a bebida dela, fico surpreso ao notar como está leve. Eu duvido que ela esteja acostumada a beber destilado puro. Parece mais o tipo de garota que curte um coquetel. Se tanto.

Eu reponho o cantil no bolso quando Bronwyn puxa de leve a minha manga.

— Sabe, eu queria ter falado com você, quando aconteceu… Fiquei triste mesmo ao saber da sua mãe — diz ela, hesitante. — Meu tio morreu num acidente de carro também, mais ou menos na mesma época. Eu queria te dizer alguma coisa, mas… Você e eu, sabe, a gente realmente não se…

Bronwyn foi parando de falar, com a mão ainda pousada no meu braço.

— Falava — completei. — Tudo bem. Sinto muito pelo seu tio.

— Você deve sentir muita saudade dela.

Eu não queria falar sobre a minha mãe.

— A ambulância veio bem rápido hoje, né?

Bronwyn fica um pouco corada e recolhe a mão, mas acompanha a mudança rápida de assunto.

— Como você sabia o que fazer? Pelo Simon?

Eu dou de ombros.

— Todo mundo sabe que ele tem alergia a amendoim. É o que se faz.

— Eu não sabia da caneta. — Bronwyn ri pelo nariz. — Cooper te deu uma caneta de verdade! Como se você fosse escrever um bilhete para ele ou algo assim. Ai, meu Deus. — Ela bate com a cabeça na parede com tanta força que deve ter quebrado alguma coisa. — Eu deveria ir para casa. Isto não serve de nada, na melhor das hipóteses.

— A oferta da carona está de pé.

Eu não espero que ela aceite, mas Bronwyn diz “claro, por que não?” e estende a mão. Ela cambaleia um pouco enquanto a ajudo a se levantar. Não achei que o álcool fosse bater após quinze minutos, mas talvez tenha subestimado o fator peso-leve de Bronwyn Rojas. Talvez eu devesse ter lhe tirado o cantil antes.

— Onde você mora? — pergunto, enquanto monto no assento e coloco a chave na ignição.

— Na Rua Thorndike. A alguns quilômetros daqui. Depois do centro da cidade, vire à esquerda no Stone Valley Terrace depois do Starbucks. Na parte rica da cidade. É claro.

Geralmente não levo ninguém na moto e não tenho um segundo capacete, então ofereço o meu. Ela o pega, e eu faço um esforço para desviar os olhos da pele nua da sua coxa quando Bronwyn monta atrás de mim e enfia a saia entre as pernas. Ela abraça minha cintura com força demais, mas não digo nada.

— Vai devagar, ok? — pede, com um certo nervosismo quando dou partida no motor.

Eu gostaria de irritá-la mais, porém saio do estacionamento na metade da minha velocidade normal. E, embora não achasse que isso fosse possível, ela me aperta com mais força ainda. Nós andamos de moto assim, com sua cabeça dentro do capacete e pressionada contra as minhas costas, e eu apostaria mil dólares, se tivesse esse dinheiro, que os olhos de Bronwyn estão bem fechados até chegarmos na sua casa.

Como era de se esperar, ela mora numa enorme mansão vitoriana com um jardim grande e um monte de árvores e flores complicadas. Há um SUV da Volvo na entrada da garagem, e minha moto — que, sendo generoso, pode ser chamada de clássica — parece tão ridícula ao lado dele quanto Bronwyn deve parecer atrás de mim. Por falar de coisas que não combinam.

Ela salta da moto e se atrapalha com o capacete. Eu solto as presilhas, ajudo Bronwyn a retirá-lo e desembaraço uma mecha de cabelo que se prendeu na tira. Ela respira fundo e ajeita a saia.

— Isso foi aterrorizante — diz. levando um susto quando um telefone toca. — Onde está minha mochila?

— Nas suas costas.

Ela tira a mochila dos ombros e arranca o celular do bolso frontal.

— Alô? Sim, eu posso… Sim, aqui é Bronwyn. Você… ai, Deus. Tem certeza? — A mochila escorrega da mão e cai aos seus pés. — Obrigada por ligar.

Bronwyn abaixa o telefone e me olha fixamente, com os olhos arregalados e vidrados.

— Nate, ele morreu — diz ela. — Simon morreu.





CAPÍTULO 3


Bronwyn

Terça-feira, 25 de setembro, 8h50

Não consigo parar de fazer as contas na cabeça. São 8h50 da manhã de terça-feira, e, há 24 horas, Simon participou da chamada pela última vez. Seis horas e cinco minutos antes do momento que fomos para a detenção. Uma hora depois, ele morreu.

Dezessete anos, morreu assim, do nada.

Eu escorrego para a carteira no canto dos fundos da sala e sinto 25 cabeças se virarem na minha direção quando me sento. Mesmo sem o Falando Nisso para fornecer uma atualização dos fatos, a notícia da morte de Simon esteve por toda parte na hora do jantar, ontem à noite. Recebi várias mensagens de todas as pessoas para quem um dia eu dei meu número.

— Você está bem?

Minha amiga Yumiko estende o braço e aperta minha mão. Faço que sim, mas o gesto piora ainda mais o latejar na minha cabeça. Descobri que meio cantil de uísque com o estômago vazio é uma péssima ideia. Felizmente meus pais ainda estavam no trabalho quando Nate me deixou em casa, e minha irmã, Maeve, me empurrou café goela abaixo, o suficiente para eu estar meio lúcida quando eles chegaram. Qualquer efeito remanescente, meus pais colocaram na conta do trauma.

Toca o primeiro sinal, mas o estalo do alto-falante, que geralmente antecede os anúncios da manhã, nunca acontece. Em vez disso, a professora que realiza a chamada, Srta. Park, pigarreia e se levanta da mesa. Ela segura uma folha de papel que treme na mão quando começa a ler.

— A seguir, um anúncio oficial da administração do Colégio Bayview. Sinto muitíssimo ter que compartilhar esta terrível notícia. Na tarde de ontem, um dos colegas de vocês, Simon Kelleher, sofreu uma grave reação alérgica. A assistência médica foi chamada de imediato e chegou com rapidez, mas, infelizmente, tarde demais para ajudar o Simon. Ele morreu no hospital, pouco tempo depois de dar entrada.

Um burburinho agitado percorre a sala enquanto alguém contém um pranto. Metade da turma já está com o celular na mão. Que se danem as regras hoje, suponho. Mas, antes que eu me controle, tiro o telefone da mochila e arrasto as telas até o Falando Nisso. Eu meio que espero uma notificação sobre a notícia quente sobre a qual Simon se vangloriou ontem, antes da detenção, mas é claro que não há nada, a não ser as notícias da semana passada.


Nosso baterista e maconheiro favorito está investindo em uma carreira no cinema. O RC instalou uma câmera na luminária do quarto e está realizando pré-estreias para todos os amigos. Vocês foram avisadas, meninas. (Talvez seja tarde demais para a KL.)

Todo mundo viu o flerte entre a maluquete TC e o novo riquinho GR, mas quem diria que pudesse ser algo mais sério? Aparentemente não o namorado dela, que se sentou na arquibancada do jogo de sábado sem perceber nada, enquanto T&G davam uns amassos calientes bem embaixo do seu nariz. Foi mal, JD. Você é sempre o último a saber.

A questão com o Falando Nisso era que… muito provavelmente tudo ali era verdadeiro. Simon criou o aplicativo no segundo ano, depois de passar o recesso da primavera em uma colônia de férias cara para programadores no Vale do Silício, e ninguém além dele tinha permissão de postar. Simon tinha fontes pelo colégio inteiro e era exigente e cuidadoso com o que relatava. As pessoas geralmente negavam ou ignoravam, mas ele nunca estava errado.

Jamais apareci no Falando Nisso; sou muito certinha para tanto. Tem apenas uma coisa que Simon poderia ter escrito sobre mim, mas teria sido impossível ele descobrir.

Agora acho que isso nunca vai acontecer mesmo.

A Srta. Park ainda está falando:

— Nessa situação de luto, haverá apoio psicológico disponível no auditório o dia inteiro. Vocês podem sair da aula a qualquer momento se sentirem necessidade de conversar com alguém sobre essa tragédia. O colégio está planejando um velório para Simon após o jogo de futebol de sábado, e nós daremos mais detalhes assim que possível. Também faremos questão de mantê-los informados sobre as providências tomadas pela família assim que soubermos.

O sinal toca, e todos nós nos levantamos para ir embora, mas a Srta. Parks chama meu nome antes mesmo que eu pegue a mochila.

— Bronwyn, posso falar com você um instante?

Yumiko dispara um olhar de solidariedade para mim ao ficar de pé enquanto arruma uma mecha do cabelo preto revolto atrás da orelha.

— Kate e eu vamos esperar por você no corredor, ok?

Concordo com a cabeça e pego a mochila. A Srta. Parks ainda está segurando o anúncio na mão quando me aproximo da mesa.

— Bronwyn, a diretora Gupta quer que todos vocês, que estiveram na sala com Simon, recebam apoio psicológico individual hoje. Ela me pediu para avisar a você que seu horário está marcado para as onze horas, na sala do Sr. O’Farrell.

O Sr. O’Farrell é meu orientador, e eu conheço muito bem sua sala. Passei muito tempo lá nos últimos seis meses, criando estratégias para entrar na faculdade.

— É o Sr. O’Farrell que está dando o apoio psicológico? — pergunto. Acho que não seria tão ruim assim.

A Srta. Parks franze a testa.

— Ah, não. O colégio trouxe um profissional.

Que ótimo. Passei metade da noite tentando convencer meus pais de que não precisava ver ninguém. Eles vão adorar saber que me forçaram a passar por isso mesmo assim.

— Tudo bem — concordo, e fico esperando caso ela tenha mais alguma coisa para me contar, mas a professora apenas dá um tapinha no meu ombro, sem jeito.

Como prometido, Kate e Yumiko estão esperando do lado de fora da porta. Elas me flanqueiam enquanto andamos até o primeiro período de Cálculo, como se estivessem me blindando dos paparazzi intrometidos. Yumiko se afasta, porém, quando vê Evan Neiman esperando do lado de fora da nossa sala de aula.

— Ei, Bronwyn. — Evan está usando sua camisa polo com um monograma ewn bordado em letra cursiva acima do coração. Sempre tive curiosidade em saber o que era o W... Walter? Wendell? William? Pelo bem dele, espero que seja William. — Você recebeu minha mensagem ontem à noite?

Recebi. Precisa de alguma coisa? Quer companhia? Sendo esta a única vez que Evan Neiman me mandou uma mensagem na vida, meu lado cínico decidiu que ele estava querendo um lugar na primeira fila da coisa mais chocante que jamais aconteceu no Colégio Bayview.

— Recebi, sim, obrigada. Mas eu estava muito cansada.

— Bem, se você estiver a fim de conversar, me avise. — Evan olha para o corredor, que está ficando vazio. Ele é um defensor da pontualidade. — A gente devia entrar, né?

Yumiko dá um sorriso para mim quando nos sentamos e sussurra:

— Evan não parava de me perguntar onde você estava durante o treino de ontem para a Olimpíada de Matemática.

Eu gostaria de estar tão entusiasmada quanto Yumiko, mas, em algum momento entre a detenção e o Cálculo, eu perdi todo o interesse em Evan Neiman. Talvez fosse estresse pós-traumático causado pela situação envolvendo Simon, mas agora eu não consigo lembrar o que me atraiu de início. Não que eu tivesse estado totalmente a fim de Evan em algum momento. Eu achava, inclusive, que Evan e eu tínhamos potencial para ser um casal sério só até a formatura, quando romperíamos de maneira amigável e seguiríamos para faculdades diferentes. O que agora eu percebo que é bastante desinteressante, mas namoro no ensino médio também é. Para mim, de qualquer forma.

Deixo a aula de Cálculo passar, com a mente muito, muito distante da matemática, e, então, de repente ela acaba e estou andando para a aula de Inglês Avançado com Kate e Yumiko. Minha cabeça ainda está tão cheia com tudo que aconteceu ontem que, quando passamos por Nate no corredor, parece perfeitamente natural chamá-lo.

— Oi, Nate.

Eu paro, surpreendendo a nós dois, e ele para também.

— Ei — responde Nate.

Seu cabelo preto está mais desalinhado do que nunca, e tenho certeza de que ele está usando a mesma camiseta de ontem. De alguma forma, porém, para ele aquele estilo funciona. Um pouco bem demais. Tudo a respeito da compleição alta e magra de Nate às maçãs do rosto angulosas e os olhos separados e delineados está me fazendo perder a linha de raciocínio.

Kate e Yumiko também estão encarando Nate, mas de uma forma diferente. Mais como se ele fosse um animal imprevisível de zoológico em uma jaula frágil. Conversas no corredor com Nate Macauley não fazem parte exatamente da nossa rotina.

— Você já teve sua sessão de apoio psicológico? — pergunto.

Seu rosto exibe uma expressão totalmente vaga.

— Minha o quê?

— Apoio psicológico por causa do luto. Pelo Simon. Nenhum professor te disse isso na hora da chamada?

— Eu acabei de chegar aqui — responde ele.

Arregalo os olhos. Jamais esperei que Nate ganhasse qualquer prêmio por pontualidade, mas são quase dez da manhã.

— Ah. Bem, todos nós que estivemos lá devemos ter sessões individuais. A minha é às onze.

— Meu Deus — murmura Nate, enquanto passa a mão pelo cabelo.

O gesto atrai meus olhos para seu braço, onde ficam até Kate pigarrear. Meu rosto fica vermelho quando recupero a atenção, tarde demais para registrar seja lá o que ela disse.

— Enfim, a gente se vê — murmuro.

Yumiko dobra a cabeça na direção da minha assim que ficamos fora do alcance de sermos ouvidas.

— Parece que ele acabou de rolar da cama — sussurra ela. — E não sozinho.

— Eu espero que você tenha tomado um banho de desinfetante depois que saiu da moto dele — acrescenta Kate. — Ele é uma puta.

Eu olho feio para ela.

— Você percebe que é sexista chamá-lo de puta, né? Se tem que usar algum termo, podia pelo menos escolher um que não ofendesse apenas as mulheres.

— Não importa — diz Kate, com desdém. — A questão é que ele é uma DST ambulante.

Eu não respondo. Essa é a reputação de Nate, claro, mas nós realmente não sabemos nada sobre ele. Quase conto para Kate como ele foi cuidadoso ao me dar carona para casa ontem, só que não sei o que eu estaria tentando provar fazendo isso.

Após a aula de Inglês, sigo para a sala do Sr. O’Farrell, e ele me chama para entrar com um gesto quando bato na porta aberta.

— Sente-se, Bronwyn. A Dra. Resnick está um pouco atrasada, mas ela estará aqui em breve.

Eu me sento diante dele e espio meu nome rabiscado na pasta de cartolina meticulosamente colocada no meio da mesa. Faço um gesto para pegá-la e hesito, sem saber se é confidencial, mas ele empurra a pasta para mim.

— Sua recomendação do organizador de simulação estudantil da ONU. Com tempo de sobra para o prazo de admissão antecipada de Yale.

Eu suspiro, aliviada.

— Ah, obrigada! — digo, e pego a pasta.

É a última que eu estava esperando. Yale é uma tradição familiar — meu avô foi professor-visitante lá e se mudou com a família inteira da Colômbia para New Haven quando pegou a cátedra. Todos os filhos, incluindo meu pai, se formaram lá, e foi em Yale que meus pais se conheceram. Eles sempre disseram que nossa família não existiria se não fosse por Yale.

— De nada. — O Sr. O’Farrell se recosta e ajusta os óculos. — Suas orelhas estavam ardendo mais cedo? O Sr. Camino passou por aqui para perguntar se você se interessaria em ser tutora de química neste semestre. Um bando de calouros brilhantes está tendo dificuldades como você teve no ano passado. Eles adorariam aprender uns métodos de alguém que acabou gabaritando a matéria.

Tenho que engolir em seco duas vezes antes de responder.

— Eu me interessaria — respondi, com o máximo de alegria possível —, mas talvez já esteja com compromissos demais.

Dou um sorriso que fica repuxado demais sobre os dentes.

— Não se preocupe. Você tem muita coisa para resolver.

Química foi a única matéria em que tive dificuldades, tanto que minha média foi 5 no meio do semestre. A cada teste que eu fracassava, parecia que as universidades tradicionais ficavam mais distantes. Até o Sr. O’Farrell começou a sugerir sutilmente que qualquer faculdade de primeira linha serviria.

Então, eu consegui aumentar minhas notas e tirei um 10 no fim do ano. Mas tenho certeza absoluta de que ninguém quer que eu compartilhe meus métodos com outros alunos.


Cooper

Quinta-feira, 27 de setembro, 12h45

— Vejo você hoje à noite?

Keely pega minha mão enquanto andamos até os armários depois do almoço, e ergue o olhar para mim com grandes olhos escuros. A mãe é sueca e o pai é filipino, e a combinação faz de Keely a menina mais bonita do colégio. De longe. Nós não nos encontramos muito esta semana por causa do beisebol e dos compromissos de família, e dá para perceber que ela está ficando impaciente. Keely não é exatamente grudenta, mas precisa de convivência regular como casal.

— Não sei — respondo. — Eu estou bem atrasado com os deveres de casa.

Os lábios perfeitos de Keely se curvam para baixo, e dá para perceber que ela está prestes a reclamar quando uma voz vem flutuando do alto-falante.

— Atenção, por favor. Cooper Clay, Nate Macauley, Adelaide Prentiss e Bronwyn Rojas, queiram se apresentar à diretoria, por favor. Cooper Clay, Nate Macauley, Adelaide Prentiss e Bronwyn Rojas à diretoria.

Keely olha em volta, como se esperasse uma explicação.

— O que significa isso? Algo a ver com Simon?

— Acho que sim.

Dou de ombros. Há dois dias, respondi o interrogatório da diretora Gupta sobre o que aconteceu durante a detenção, mas talvez ela esteja preparando outra rodada de perguntas. Meu pai falou que os pais de Simon têm muitos contatos na cidade, e o colégio deve estar preocupado em ser processado caso tenha sido negligente de alguma forma.

— Melhor eu ir. Falo com você mais tarde, ok?

Dou um beijo rápido no rosto de Keely, coloco a mochila no ombro e sigo pelo corredor.

Quando chego à diretoria, a recepcionista aponta para uma pequena sala de reuniões que já está cheia de gente: a diretora Gupta, Addy, Bronwyn, Nate e um policial. Minha garganta fica um pouco seca quando me sento na última cadeira vazia.

— Cooper, ótimo. Agora podemos começar. — A diretora entrelaça as mãos diante de si e olha em volta da mesa. — Eu gostaria de apresentar o agente Hank Budapest, do Departamento de Polícia de Bayview. Ele tem algumas perguntas sobre o que vocês testemunharam na segunda-feira.

O agente Budapest aperta a mão de cada um de nós a seguir. Ele é jovem, mas já está ficando careca, tem cabelo castanho-claro e sardas. Não é muito intimidador, em termos de autoridade.

— É um prazer conhecer todos vocês. Isto aqui não deve levar muito tempo, mas, após falar com a família Kelleher, nós queremos examinar mais a fundo a morte de Simon. Os resultados da autópsia saíram hoje de manhã e…

— Já? — interrompe Bronwyn, o que rende um olhar feio da diretora Gupta que ela nem percebe. — Eles geralmente não levam mais tempo?

— Resultados preliminares podem ficar disponíveis dentro de dois dias — explica o agente Budapest. — Esses foram bastante definitivos e mostram que Simon morreu de uma grande dose de óleo de amendoim ingerido pouco antes da crise alérgica. O que os pais acharam estranho, considerando como ele sempre foi cuidadoso com o que comia e bebia. Todos vocês disseram à diretora Gupta que Simon bebeu um copo d’água antes de entrar em colapso, certo?

Todos nós concordamos com a cabeça, e o agente Budapest continua:

— O copo contém traços de óleo de amendoim, então parece claro que Simon morreu por causa daquela bebida. O que estamos tentando descobrir agora é como o óleo de amendoim conseguiu entrar no copo.

Ninguém fala. Addy encontra meu olhar e depois vira o rosto, com a testa um pouco franzida.

— Alguém se lembra onde Simon pegou o copo? — pergunta o agente Budapest, e pousa a caneta sobre um bloco em branco diante de si.

— Eu não estava prestando atenção — responde Bronwyn. — Estava escrevendo a redação.

— Eu também — fala Addy, embora eu pudesse jurar que ela nem sequer tinha começado.

Nate alonga o corpo e encara o teto.

— Eu me lembro — digo. — Ele pegou o copo de uma pilha perto da pia.

— A pilha estava de cabeça para baixo ou virada para cima?

— De cabeça para baixo — respondo. — Simon puxou o copo de cima.

— Você notou algum líquido saindo quando ele pegou o copo? Simon balançou o copo?

Eu me recordo.

— Não, ele apenas encheu de água.

— E depois bebeu?

— Sim — digo, mas Bronwyn me corrige.

— Não — diz ela. — Não imediatamente. Ele falou por um tempo. Lembra? — Bronwyn se volta para Nate. — Ele perguntou se Nate colocou os celulares nas nossas mochilas. Aqueles que fizeram a gente ficar de detenção com o Sr. Avery.

— Os celulares. Certo. — O agente Budapest rabisca alguma coisa no bloco. Ele não disse aquilo como uma pergunta, mas Bronwyn explica mesmo assim.

— Alguém pregou uma peça na gente — diz ela. — É por isso que estávamos na detenção. O Sr. Avery encontrou telefones nas nossas mochilas, mas eles não eram nossos. — Bronwyn se volta para a diretora Gupta com uma expressão ofendida. — Não foi justo mesmo. Eu queria perguntar se isso é uma coisa que vai ficar no nosso currículo permanente?

Nate revira os olhos.

— Não fui eu. Alguém enfiou um celular na minha mochila também.

A diretora Gupta franze a testa.

— Esta é a primeira vez que ouço falar disso.

Eu dou de ombros quando ela me encara. Aqueles celulares foram a última coisa na minha cabeça nos últimos dias.

O agente Budapest não pareceu surpreso.

— O Sr. Avery mencionou esse fato quando eu me encontrei com ele mais cedo. Ele disse que nenhum dos alunos foi pegar os telefones, então pensou que deve ter sido um trote afinal de contas. — O policial enfia a caneta entre o indicador e o dedo médio, e bate na mesa de maneira ritmada. — Este é o tipo de brincadeira que Simon poderia ter feito com todos vocês?

— Não vejo motivo — responde Addy. — Havia um celular na mochila dele também. Além disso, eu mal o conhecia.

— Você esteve no conselho do baile dos calouros com ele — comenta Bronwyn.

Addy pestaneja, como se só agora se lembrasse de que isso era verdade.

— Algum de vocês já teve problemas com Simon? — pergunta o agente Budapest. — Eu ouvi falar sobre o aplicativo que ele criou… o Falando Nisso, certo? — Ele está olhando para mim, então concordo com a cabeça. — Vocês já estiveram nele alguma vez?

Todo mundo balança a cabeça, a não ser Nate.

— Um monte de vezes — responde ele.

— Por quais motivos? — indaga o agente Budapest.

Nate dá um risinho irônico.

— Por umas merdas… — Ele começa, mas é interrompido pela diretora Gupta.

— Olhe o linguajar, Sr. Macauley.

— Por umas besteiras — corrige Nate. — Quem estou pegando, na maioria das vezes.

— Isso lhe incomoda? Ser motivo de fofocas?

— Não mesmo.

Ele parece estar sendo sincero. Acho que aparecer em um aplicativo de fofocas não é grande coisa comparado a ser preso. Se é que isso é verdade. Simon nunca postou, então ninguém parece saber exatamente qual é o lance com Nate.

É meio patético que Simon fosse nossa fonte mais confiável de notícias.

O agente Budapest olha para o restante de nós.

— Mas vocês três não? — Todos balançamos a cabeça novamente. — Vocês algum dia se preocuparam com aparecer no aplicativo do Simon? Sentiram como se alguma coisa estivesse pairando sobre vocês ou algo assim?

— Eu, não — respondo, mas a voz não sai tão confiante quanto eu gostaria.

Desvio o olhar do agente Budapest e flagro Addy e Bronwyn com expressões opostas: Addy está pálida como um fantasma, e Bronwyn, vermelha como um tijolo. Nate observa as duas por alguns segundos, reclina a cadeira para trás e olha para o agente Budapest.

— Todo mundo tem segredos — diz ele. — Certo?


Minha série de exercícios entra noite adentro, mas meu pai faz todo mundo esperar até que eu termine para que todos possamos jantar juntos. Meu irmão, Lucas, agarra o estômago e cambaleia até a mesa com um olhar sofrido quando finalmente nos sentamos às sete horas.

O assunto da conversa é o mesmo da semana inteira: Simon.

— Era de imaginar que a polícia fosse se envolver em algum momento — diz o Pai, enquanto coloca no prato uma pequena montanha de purê de batata com a colher. — Algo não está certo na forma como aquele rapaz morreu. — Ele deu um muxoxo de desdém. — Óleo de amendoim no sistema hidráulico, talvez? Os advogados vão fazer a festa com isso.

— Os olhos dele estavam esbugalhados e saindo da cabeça assim? — pergunta Lucas, fazendo uma careta. Meu irmão tem 12 anos, e a morte de Simon não é nada além de sangue de videogame para ele.

Minha avó estende o braço e dá um tapa nas costas da mão de Lucas. Ela mal chega a 1,50 metro de altura, tem uma cabeça cheia de cachos brancos, mas não brinca em serviço.

— Cale a boca, a não ser que seja para falar daquele pobre rapaz com respeito.

A Vovó mora conosco desde que nos mudamos para cá, vindo do Mississippi, há cinco anos. Fiquei surpreso de ela ter nos acompanhado; nosso avô morreu há anos, mas a Vovó tinha muitos amigos e clubes que a mantinham ocupada por lá. Agora que moramos aqui há algum tempo, eu entendo. Nossa casa em estilo colonial, que é bem simples, custa três vezes o que a casa no Mississippi custava, e sem o dinheiro da Vovó não conseguiríamos bancá-la. Mas é possível jogar beisebol o ano inteiro em Bayview, e a cidade tem um dos melhores programas de ensino médio do país. Em algum momento, o Pai espera que eu faça essa hipoteca gigante e o emprego que ele odeia valerem a pena.

Talvez eu consiga. Depois que o meu arremesso melhorou em 8 quilômetros por hora no decorrer do verão, acabei em quarto lugar nas previsões que a ESPN faz para a seleção da liga de beisebol do ano seguinte. Também estou sendo sondado para um monte de universidades e não me importaria de ir para lá primeiro. Mas o beisebol não é o mesmo que o futebol americano ou o basquete. Se um cara consegue uma vaga nos times pequenos saindo do ensino médio, ele geralmente vai.

O Pai aponta para mim com a faca.

— Você tem um jogo de exibição no sábado. Não se esqueça.

Como se eu pudesse. O horário está pendurado pela casa inteira.

— Kevin, talvez fosse melhor um fim de semana de folga? — murmura minha mãe, mas sem convicção. Ela sabe que essa é uma batalha perdida.

— A melhor coisa que Cooperstown pode fazer é seguir com a vida — responde o Pai. — Ficar de corpo mole não vai reviver aquele garoto. Que Deus o tenha.

Os olhinhos vivos da Vovó se voltam para mim.

— Espero que você perceba que nenhum de vocês podia ter feito alguma coisa por Simon, Cooper. A polícia tem que colocar os pingos nos is, só isso.

Não sei, não. O agente Budapest não parou de me perguntar sobre o sumiço das canetas de adrenalina e quanto tempo fiquei sozinho na sala da enfermeira. Quase como se ele pensasse que eu pudesse ter feito alguma coisa com elas antes de a Sra. Grayson aparecer. Mas o policial não chegou a dizer isso. Se ele acha que alguém aprontou com Simon, não sei por que não está investigando Nate. Se qualquer um me perguntasse — o que ninguém fez —, eu gostaria de saber como um cara assim sabia sobre as tais canetas de adrenalina, para início de conversa.

Nós mal acabamos de recolher a louça da mesa quando a campainha toca e Lucas dispara para a porta aos berros:

— Eu atendo! — Alguns segundos depois, ele grita de novo: — É Keely!

A Vovó fica de pé com dificuldade e usa a bengala com cabo de caveira, que Lucas escolheu no ano passado, quando se conformou com o fato de que não podia andar mais por conta própria.

— Achei que vocês dois não tivessem planos hoje à noite, Cooper.

— Não tínhamos — murmuro, quando Keely entra na cozinha com um sorriso e me abraça forte pelo pescoço.

— Como vai você? — sussurra ela no meu ouvido, e os lábios macios roçam na minha bochecha. — Pensei em você o dia inteiro.

— Ok — respondo.

Ela recua, mete a mão no bolso, mostra rapidamente uma embalagem de celofane e me dá um sorriso. Red Vines, que com certeza não faz parte da minha dieta nutricional, mas são meus doces de alcaçuz prediletos no mundo todo. Essa garota sabe me irritar. E meus pais, que exigem alguns minutos de conversa educada até saíram para o campeonato de boliche deles, também.

Meu celular apita, e eu o puxo do bolso.

Oi, gato.

Eu abaixo a cabeça para esconder o sorriso que subitamente surge no canto da boca e respondo à mensagem: Oi.

Vamos nos ver hoje à noite?

Agora não dá. Te ligo depois?

Ok, saudades.

Keely está falando com minha mãe, os olhos acesos com interesse. Ela não está fingindo. Keely não apenas é linda; ela é o que a Vovó chama de “feita inteirinha de açúcar.” Uma garota genuinamente doce. Todo cara em Bayview queria ser eu.

Saudades também.





CAPÍTULO 4


Addy

Quinta-feira, 27 de setembro, 19h30

Eu deveria estar fazendo o dever de casa antes que Jake passe aqui, mas, em vez disso, estou sentada à penteadeira do quarto, massageando a pele próxima ao meu couro cabeludo. A maciez na têmpora esquerda dá a impressão de que vai se transformar em uma daquelas enormes espinhas horríveis que aparecem de tantos em tantos meses. Sempre que estou com uma dessas, sei que é tudo que as pessoas conseguem ver.

Vou ter que usar o cabelo solto por um tempo, que é a maneira preferida de Jake, de qualquer forma. Meu cabelo é a única coisa em que tenho cem por cento de confiança, o tempo todo. Estive no Glenn’s Diner na semana passada com minhas amigas, sentada ao lado de Keely em frente ao grande espelho, e ela esticou o braço e passou a mão pelo meu cabelo enquanto sorria para os reflexos. Podemos trocar, por favor? Só por uma semana, pediu ela.

Eu sorri para Keely, mas desejei que estivesse sentada no outro lado da mesa. Odeio quando Keely e eu estamos lado a lado. Ela é tão linda, com aquela pele morena, cílios longos e lábios de Angelina Jolie. Keely é a protagonista de um filme, e eu sou a melhor amiga figurante cujo nome a pessoa esquece antes que os créditos comecem a subir.

A campainha toca, mas sei que não devo esperar que Jake suba a escada imediatamente. Minha mãe vai sequestrá-lo por pelo menos dez minutos. Ela não se cansa de ouvir sobre o caso de Simon e conversaria sobre a reunião de hoje com o agente Budapest a noite inteira se eu deixasse.

Divido o cabelo em partes e passo a escova em cada lado. A mente continua voltando para Simon. Ele tinha sido uma presença constante no nosso grupo desde o primeiro ano, mas nunca foi um de nós. Tinha apenas uma amiga de verdade, uma garota meio gótica chamada Janae. Eu achava que os dois estavam juntos até que Simon começou a chamar todas as minhas amigas para sair. Claro que nenhuma nunca disse sim. Embora ano passado, antes de começar a namorar Cooper, Keely ficou superbêbada numa festa e deixou Simon beijá-la por cinco minutos num closet. Ela levou anos para se livrar dele depois daquilo.

Eu não sei no que Simon estava pensando, para ser sincera. Keely só curte um único tipo: atleta. Ele devia ter corrido atrás de alguém como Bronwyn. Ela é bonitinha o suficiente, de um jeito discreto, com olhos cinzentos interessantes e um cabelo que provavelmente ficaria ótimo se algum dia o soltasse. Além disso, Simon e ela devem ter se esbarrado o tempo todo nas turmas avançadas.

Só que hoje eu tive a impressão de que Bronwyn não gostava muito de Simon. Ou não gostava nada. Quando o agente Budapest falou como Simon morreu, Bronwyn pareceu… sei lá. Que não estava triste.

Há uma batida na porta, e eu a vejo se abrir pelo espelho. Continuo escovando o cabelo enquanto Jake entra. Ele arranca os tênis e desaba na minha cama com um cansaço exagerado, de braços abertos ao lado do corpo.

— Sua mãe me exauriu, Ads. Eu nunca encontrei alguém que conseguisse fazer a mesma pergunta de tantas maneiras.

— Nem me fale — digo, levantando para me juntar a ele.

Jake passa o braço por mim, e eu me enrosco em seu corpo, com a cabeça no ombro e a mão no peito. Nós sabemos como nos encaixar perfeitamente, e isso me relaxa pela primeira vez desde que fui chamada à sala da diretora Gupta.

Passo os dedos por seu bíceps. Jake não é tão definido quanto Cooper, que é praticamente um super-herói com toda a malhação de nível profissional que ele faz, mas para mim Jake é o equilíbrio perfeito entre musculoso e magro. E ele é rápido, o melhor running back que o Colégio Bayview viu em anos. Ele não atrai tanta atenção quanto Cooper, mas algumas universidades estão interessadas, e Jake tem uma boa chance de conseguir uma bolsa.

— A Sra. Kelleher me chamou — revela ele.

Minha mão para a subida pelo braço de Jake enquanto encaro o tom vivo de azul do algodão de sua camiseta.

— A mãe do Simon? Por quê?

— Ela me pediu para carregar o caixão no enterro. Vai ser no domingo — responde Jake, dando de ombros. — Eu disse que sim. Não posso recusar, posso?

Eu às vezes me esqueço de que Simon e Jake foram amigos no ensino fundamental, antes de Jake se tornar um atleta e Simon virar… o que quer que ele fosse. No primeiro ano do ensino médio, Jake entrou para o time principal de futebol americano e começou a andar com Cooper — que já era uma lenda em Bayview, depois de quase ter levado seu time do ensino fundamental para o torneio nacional de beisebol infantil como arremessador. No segundo ano, os dois eram basicamente os reis da nossa turma, e Simon era apenas um garoto esquisito qualquer que Jake conhecia.

Eu desconfio de que Simon tenha lançado o Falando Nisso para impressionar Jake. Simon descobriu que alguns rivais no futebol estavam por trás do assédio sexual de algumas calouras através de mensagens anônimas de texto e postou isso num aplicativo chamado Depois da Aula. Aquilo atraiu um monte de atenção por algumas semanas, e Simon também. Aquela deve ter sido a primeira vez que alguém em Bayview o notou.

Jake provavelmente deu um tapinha nas costas de Simon uma vez e se esqueceu daquilo, só que Simon seguiu em frente e criou o próprio aplicativo. Fofoca como serviço de utilidade pública não vai muito longe, então ele começou a postar coisas mais triviais e mais pessoais do que o escândalo das mensagens de conteúdo sexual. Ninguém mais pensou que ele era um herói, mas àquela altura todos estavam ficando com medo de Simon, e acho que, para ele, aquilo quase dava no mesmo.

Jake, porém, geralmente defendia Simon quando nossos amigos o criticavam por causa do Falando Nisso, Não é como se ele estivesse mentindo, observava Jake. Parem de fazer coisas na encolha e ninguém vai ter problemas.

Às vezes Jake consegue ser bem direto no seu raciocínio. É fácil quando nunca se cometeu um erro.

— Nós ainda vamos para a praia amanhã de noite se não houver problema — diz ele agora, enroscando meu cabelo nos dedos. Jake fala como se aquilo dependesse de mim, mas ambos sabemos que ele é o responsável por nossa vida social.

— É claro — murmuro. — Quem vai?

Não diga TJ.

— Cooper e Keely devem ir, embora ela não tenha certeza se ele está a fim. Luis e Olivia. Vanessa, Tyler, Noah, Sarah…

Não diga TJ.

— … e TJ.

Argh. Não sei se é a minha imaginação ou se TJ, que costumava viver à margem do nosso grupo como o garoto novo, virou o centro das atenções, quando na verdade eu gostaria que ele sumisse de vez.

— Ótimo — digo sem emoção, e subo o rosto para beijar o maxilar de Jake. É aquele momento do dia quando está um pouco áspero, o que é uma novidade neste ano.

— Adelaide! — A voz da minha mãe surge pela escada. — Estamos saindo.

Justin e ela vão a algum lugar no centro quase toda noite, geralmente a restaurantes, mas às vezes a boates. Justin só tem 30 anos e ainda curte toda aquela cena noturna. Minha mãe também curte quase do mesmo jeito, especialmente quando as pessoas confundem e acham que ela é da mesma idade de Jake.

— Ok! — respondo, e ouço a porta bater.

Após um minuto, Jake se debruça para me beijar e a mão entra embaixo da minha camiseta.

Um monte de gente acha que Jake e eu transamos desde o primeiro ano, mas não é verdade. Ele quis esperar até o baile dos calouros. Foi um grande evento; Jake alugou um quarto de hotel de luxo que ele encheu com velas e flores, e comprou uma lingerie fantástica da Victoria’s Secret para mim. Eu não teria me incomodado com alguma coisa um pouco mais espontânea, eu acho, mas sei que tenho muita sorte de ter um namorado que se importe a ponto de planejar cada detalhezinho.

— Tudo bem com isso aqui? — Os olhos de Jake vasculham meu rosto. — Ou você prefere ficar apenas de bobeira?

As sobrancelhas se erguem, como se fosse uma pergunta de verdade, mas a mão continua descendo.

Eu nunca recuso Jake. É como minha mãe disse quando me levou pela primeira vez para tomar a pílula: se você diz não muitas vezes, logo outra pessoa vai aparecer para dizer sim. De qualquer forma, eu quero tanto quanto ele. Eu vivo por esses momentos de intimidade com Jake; acho que eu entraria dentro dele se fosse possível.

— Está mais do que bem — asseguro, e puxo Jake para cima de mim.


Nate

Quinta-feira, 27 de setembro, 20h

Eu moro naquela casa. Aquela pela qual as pessoas passam de carro e dizem eu não acredito que alguém de fato vive ali. Nós moramos naquela casa, mas o termo “morar” talvez seja um exagero. Passo o máximo de tempo fora dali, e meu pai está semimorto.

A casa fica no limite de Bayview, o tipo de rancho ferrado que os ricos compram para demolir. A chaminé está se desintegrando desde que tenho 10 anos. Sete anos mais tarde, todo o resto se juntou a ela: a pintura está descascada, as persianas caídas, os degraus de concreto na frente, com rachaduras escancaradas. O jardim está ruim do mesmo jeito. A grama quase chega aos joelhos, e depois da seca do verão ela ficou amarelada. Eu costumava cortá-la, até que me toquei que cuidar de jardim é um desperdício de tempo que nunca acaba.

Quando entro, vejo meu pai desmaiado no sofá com uma garrafa vazia de destilado na frente. Ele considera um golpe de sorte ter caído de uma escada enquanto consertava um telhado há alguns anos, na época em que ainda era um alcoólatra operante. Acabou ganhando o valor do seguro contra acidentes de trabalho e passou a ser suficientemente inválido e a receber aposentadoria do governo, que, para um cara como meu pai, é como tivesse ganhado na loteria. Agora ele pode beber sem ser interrompido enquanto o pagamento continua caindo na conta.

O dinheiro não é muito, de qualquer forma. Gosto de TV por assinatura, manter minha moto rodando e, de vez em quando, comer algo mais do que macarrão com queijo. E é por isso que arrumei um trabalho de meio expediente e passo quatro horas distribuindo sacos plásticos cheios de analgésicos por San Diego, depois das aulas. Obviamente não é algo que eu deveria estar fazendo, especialmente após ter sido preso por traficar maconha no verão e estar em liberdade condicional. Mas nada paga tão bem e exige tão pouco esforço.

Vou para a cozinha, abro a porta da geladeira e tiro os restos de comida chinesa. Há uma foto presa por um ímã, rachada como uma janela quebrada. Meu pai, minha mãe e eu aos 11 anos, bem antes de ela ir embora.

Minha mãe era bipolar e não prestava muita atenção na medicação, então não é como se eu tivesse tido uma infância fantástica enquanto ela esteve aqui. A memória mais antiga que tenho é de minha mãe deixando cair um prato e depois se sentando no chão, em meio aos cacos, chorando sem parar. Uma vez eu saltei do ônibus quando ela estava jogando todas as nossas coisas pela janela. Várias vezes, minha mãe se encolhia num canto da cama e não se mexia durante dias.

Só que as fases maníacas eram uma viagem. No meu aniversário de 8 anos, ela me levou a uma loja de departamentos, me entregou um carrinho e disse para eu enchê-lo com o que quisesse. Quando eu tinha 9 anos e curtia répteis, minha mãe me surpreendeu ao montar um terrário na sala de estar com um dragão-barbudo. Nós o chamamos de Stan por causa de Stan Lee, e eu ainda tenho o bicho. Esses animais vivem para sempre.

Meu pai não bebia tanto naquela época, e assim os dois conseguiram me colocar na escola e em atividades esportivas. Aí minha mãe interrompeu completamente a medicação e começou a tomar outras substâncias que mexem com a sua cabeça. Sim, eu sou o babaca que trafica drogas após elas terem destruído a própria mãe. Mas para deixar claro: eu não vendo nada além de maconha e analgésicos. Minha mãe teria ficado na boa se tivesse se mantido longe da cocaína.

Durante um tempo, ela voltava de poucos em poucos meses. Depois, uma vez por ano. A última vez que a vi foi quando eu tinha 14 anos e meu pai começou a desmoronar. Minha mãe não parava de falar sobre a fazenda comunitária para onde tinha se mudado no Oregon e como lá era ótimo, que ela me levaria e eu poderia ir à escola com todos os garotos hippies, plantar frutinhas silvestres orgânicas e seja lá que diabos eles faziam.

Ela comprou para mim um sundae enorme no Glenn’s Diner, como se eu ainda tivesse 8 anos, e me contou tudo a respeito da fazenda comunitária. Você vai gostar de lá, Nathaniel. Todo mundo é tão tolerante. Ninguém te rotula como fazem aqui.

Parecia uma mentira mesmo na época, mas melhor do que Bayview. Então eu fiz a mala, coloquei Stan na caixinha de transporte e esperei por ela nos degraus da frente. Devo ter passado metade da noite sentado lá, um verdadeiro trouxa da porra, até que finalmente me toquei de que minha mãe não ia aparecer.

Acabou que aquela ida ao Glenn’s Diner foi a última vez que a vi na vida.

Enquanto a comida chinesa esquenta, eu cuido de Stan, que ainda tem uma pilha de frutas e legumes murchos e alguns grilos vivos de hoje de manhã. Eu levanto a tampa do terrário, e ele pisca para mim de cima da pedra. Stan é muito tranquilo e não dá muitos gastos, que é a única razão para ter conseguido se manter vivo nesta casa por oito anos.

— Qual é, Stan?

Eu o coloco no ombro, pego a comida e desmorono em uma poltrona diante do meu pai em coma. Ele está com a TV ligada na liga de beisebol, e eu desligo porque (a) odeio beisebol e (b) porque o jogo me faz lembrar de Cooper Clay, que me faz lembrar de Simon Kelleher e de toda aquela cena revoltante na detenção. Eu jamais gostei do garoto, mas aquilo foi horrível. E, pensando bem, Cooper foi quase tão inútil quanto a loura. Bronwyn foi a única que fez alguma coisa além de balbuciar que nem uma idiota.

Minha mãe gostava de Bronwyn. Ela sempre a notava nas atividades escolares. Como no Auto de Natal do quarto ano do fundamental, quando eu fui um pastor e Bronwyn foi a Virgem Maria. Alguém roubou o Menino Jesus antes de começarmos, provavelmente para sacanear Bronwyn porque ela levava tudo a sério demais, mesmo naquela época. Ela foi até a plateia, pegou uma bolsa emprestada, embrulhou num cobertor e levou nos braços como se nada tivesse acontecido. Aquela garota não leva para casa desaforo de ninguém, disse minha mãe em tom de aprovação.

Ok. Para falar a verdade, eu roubei o Menino Jesus, e foi para zoar com Bronwyn, com certeza. Teria sido mais engraçado se ela tivesse surtado.

A jaqueta apita, e eu procuro nos bolsos pelo telefone certo. Quase gargalhei na detenção segunda-feira quando Bronwyn disse que ninguém tinha dois telefones. Eu tenho três: um para as pessoas que conheço, outro para os fornecedores e um terceiro para os clientes. E mais aparelhos para poder trocá-los. Mas eu não seria idiota a ponto de levar qualquer um deles para a aula do Sr. Avery.

Meus telefones de trabalho estão sempre programados para vibrar, então sei que é uma mensagem pessoal. Eu pego meu iPhone jurássico e vejo uma mensagem de texto de Amber, uma garota que conheci numa festa mês passado. Tá a fim?

Eu hesito. Amber é gostosa e nunca fica por muito tempo, mas ela esteve aqui há apenas algumas noites. As coisas começam a se complicar quando deixo uma transa casual acontecer mais de uma vez por semana. Mas estou inquieto e uma distração cairia bem.

Chega aí, respondo.

Estou prestes a guardar o telefone quanto surge outra mensagem. É de Chad Posner, um cara do colégio com quem saio às vezes. Viu isso? Clico no link da mensagem e abro uma página do Tumblr com a manchete “Falando Nisso.”


Eu tive a ideia de matar Simon enquanto assistia ao Dateline.

Obviamente andei pensando no assunto por um tempo. Não é o tipo de coisa que a pessoa faça assim, do nada. Mas como sair impune sempre me deteve. Não me engano achando que cometi o crime perfeito. Tenho beleza demais para acabar na prisão.

No programa, um cara matou a esposa. Assunto típico do Dateline, certo? É sempre o marido. Mas na verdade um monte de gente ficou contente de vê-la morta. Ela provocou a demissão de um colega de trabalho, passou a perna no pessoal do conselho municipal e teve um caso com um amigo do marido. A mulher era um pesadelo, basicamente.

O cara do Dateline não foi muito inteligente. Contratou alguém para matar a esposa e os registros do celular foram fáceis de rastrear. Mas, antes de esses dados surgirem, ele tinha uma cortina de fumaça decente por causa de todos os outros suspeitos. Este é o tipo de pessoa que se pode matar e sair impune: alguém que todo mundo quer ver morto.

Sejamos francos: todo mundo no Colégio Bayview odiava Simon. A diferença é que eu tive coragem suficiente para fazer algo a respeito disso.

De nada.

O telefone quase escapa da minha mão. Outra mensagem de Chad Posner chegou enquanto eu estava lendo. As pessoas são perturbadas.

Eu respondo: Onde você achou isso?

Posner escreve Uma pessoa qualquer mandou o link por e-mail, acompanhado do emoji chorando de tanto rir. Ele acha que isso é uma brincadeira de mau gosto de alguém. O que é o que a maioria das pessoas pensaria se elas não tivessem passado uma hora com um policial perguntando, de dez maneiras diferentes, como óleo de amendoim foi parar no copo de Simon Kelleher. Junto com três outras pessoas que pareciam completamente culpadas.

Nenhuma tinha tanta experiência quanto eu em manter uma expressão séria enquanto a merda está batendo no ventilador ao redor. Pelo menos nenhum delas é tão boa nisso quanto eu.





CAPÍTULO 5


Bronwyn

Sexta-feira, 28 de setembro, 18h45

A noite de sexta-feira é um alívio. Maeve e eu nos instalamos no quarto dela para uma maratona de Buffy, a caça-vampiros na Netflix. É a nossa última obsessão, e eu estava ansiosa por isso a semana inteira, mas hoje à noite estamos prestando metade da atenção. Maeve está enroscada no banco embaixo da janela, teclando no laptop, e eu estou esparramada na cama com Ulisses, de James Joyce, aberto no Kindle. Esse livro está na primeira posição na lista dos 100 melhores romances da Biblioteca Moderna, e estou determinada a terminá-lo antes do fim do semestre, mas está indo bem devagar. E não consigo me concentrar.

Hoje, no colégio, todo mundo só conseguia falar sobre a postagem no Tumblr. Um bando de garotos recebeu o link por e-mail ontem à noite de um endereço “Falando Nisso” do Gmail, e lá pela hora do almoço todo mundo tinha lido a mensagem. Yumiko ajuda na sala da diretoria às sextas e ouviu os professores falando sobre tentar rastrear quem fez aquilo através do endereço de IP.

Duvido de que eles tenham sucesso. Ninguém com um mínimo de cérebro enviaria algo como aquilo usando tecnologia própria.

Desde a detenção na segunda-feira, as pessoas foram cuidadosas e extremamente gentis comigo, mas hoje foi diferente. As conversas sempre paravam quando eu me aproximava. Yumiko finalmente falou:

— Não é que as pessoas pensem que você mandou o e-mail. Elas só acham que é esquisito que vocês tenham sido interrogados pela polícia ontem à noite, e aí surge isso.

Como se isso fosse me fazer sentir melhor.

— Imagine só. — A voz de Maeve me assusta e me traz de volta ao quarto. Minha irmã coloca o laptop de lado e tamborila os dedos de leve na janela. — Nesta época, no ano que vem, você estará em Yale. O que você acha que vai fazer lá em uma sexta-feira à noite? Festa do grêmio?

Eu reviro os olhos para ela.

— Claro, porque a pessoa recebe um transplante de personalidade juntamente com a carta de aceitação. De qualquer forma, eu ainda tenho que entrar.

— Você vai entrar. Como não?

Eu me remexo inquieta na cama. De várias maneiras.

— Nunca se sabe.

Maeve continua tamborilando os dedos no vidro.

— Se você está sendo modesta por minha causa, pode parar. Estou bem à vontade no papel da acomodada da família.

— Você não é acomodada — contesto.

Ela apenas sorri e faz um gesto com a mão. Maeve é uma das pessoas mais inteligentes que conheço, mas, até o primeiro ano do ensino médio, ela estava doente demais para frequentar o colégio com consistência. Minha irmã foi diagnosticada com leucemia aos 7 anos e só ficou completamente livre da doença há dois, quando fez 14 anos.

Quase a perdemos em duas ocasiões. Uma vez, quando eu estava no quarto ano, ouvi um padre no hospital perguntar para os meus pais se eles começariam a tomar as “providências.” Eu entendi o que ele quis dizer. Abaixei a cabeça e rezei: Por favor, não leve a minha irmã. Eu farei tudo certinho se ela ficar aqui. Vou ser perfeita. Prometo.

Depois de tantos anos entrando e saindo do hospital, Maeve nunca aprendeu realmente como participar da vida. Eu faço isso por nós duas: entro para os clubes, venço os prêmios e tiro as notas para conseguir frequentar Yale, como nossos pais fizeram. Tudo isso deixa os dois felizes e evita que Maeve se esforce demais.

Minha irmã volta a olhar pela janela com a expressão distante de sempre. Ela mesma parece um devaneio: pálida e etérea, o cabelo castanho-escuro como o meu, mas os olhos cor de âmbar surpreendentes. Estou prestes a perguntar o que está pensando quando ela subitamente se senta com as costas retas e coloca as mãos em volta dos olhos enfiando a cara na janela.

— Aquele é Nate Macauley? — pergunta Maeve.

Eu dou um muxoxo de desdém sem me mexer, e ela diz:

— Estou falando sério. Olhe.

Eu me levanto e me debruço ao lado de Maeve. Só consigo distinguir uma silhueta tênue de uma moto na entrada de garagem.

— Mas que diabos...

Maeve e eu nos entreolhamos, e ela dispara um sorrisinho malicioso para mim.

— O que foi? — pergunto num tom que saiu mais agressivo do que eu queria.

— O que foi? — imita ela. — Você acha que eu não me lembro de você suspirando por ele no ensino fundamental? Eu estava doente, não morta.

— Não brinque com isso. Meu Deus. E aquilo foi há milhares de anos. — A moto de Nate ainda está na entrada da garagem, sem se mover. — O que você acha que ele está fazendo aqui?

— Só tem um jeito de descobrir. — A voz da Maeve é irritantemente cantada, e ela ignora o olhar feio que recebe de mim quando me levanto.

Meu coração dispara até lá embaixo. Nate e eu nos falamos mais no colégio nesta semana do que desde o quinto ano, o que, é bem verdade, ainda não é muita coisa. Toda vez que o vejo tenho a impressão de que ele mal pode esperar para estar em outro lugar qualquer. Mas eu continuo esbarrando nele.

A abertura da porta da frente aciona um refletor em frente à garagem que parece colocar Nate num palco. Vou até ele com os nervos à flor da pele, e sinto uma enorme vergonha de estar com a habitual roupa de ficar de bobeira com Maeve em casa: chinelos, um casaco com capuz e shorts de ginástica. Não que Nate esteja fazendo muito esforço. Eu já vi aquela camiseta da Guinness pelo menos duas vezes esta semana.

— Oi, Nate — cumprimento. — E aí?

Nate tira o capacete, e os olhos azul-escuros passam por mim até a nossa porta da frente.

— Oi. — Ele não diz mais nada por um tempo constrangedor.

Eu cruzo os braços e espero. Finalmente Nate encara o meu olhar com um sorriso irônico que faz meu estômago dar uma lenta pirueta

— Eu não tenho um bom motivo para estar aqui.

— Você quer entrar? — pergunto, sem pensar.

Nate hesita.

— Aposto que seus pais iam amar isso.

Ele não sabe da missa a metade. O estereótipo que o papai menos gosta é o traficante colombiano, e ele não gostaria de ouvir sequer uma insinuação de envolvimento com esse tipo da minha parte. Mas me vejo dizendo: — Eles não estão em casa. — E aí acrescento rapidamente: — Estou de bobeira com a minha irmã. — Antes que Nate pense que foi alguma espécie de cantada.

— Ah, ok.

Nate sai da moto e me segue, como se o convite não fosse grande coisa, então eu tento agir com a mesma indiferença. Maeve está apoiada na bancada da cozinha quando entramos, embora eu tivesse certeza de que ela estava espiando pela janela do quarto há dez segundos.

— Você já conhece minha irmã, Maeve?

Nate balança a cabeça.

— Não. Como vai?

— Beleza — responde Maeve, olhando para ele com sincero interesse.

Eu não tenho ideia do que fazer a seguir, quando ele tira a jaqueta e a joga sobre a cadeira da cozinha. Como devo… fazer sala para Nate Macauley? Não é nem minha responsabilidade, certo? Foi ele que surgiu do nada. Eu deveria fazer o que faço normalmente. Só que o que faço normalmente é ficar sentada no quarto da minha irmã, vendo séries retrô de vampiros enquanto meio que leio Ulisses.

Estou completamente perdida aqui.

Nate não nota meu incômodo e passa pelas portas francesas que levam à sala de estar. Maeve me dá uma cotovelada enquanto o seguimos e murmura:

— Que boca tan hermosa.

— Cale a boca — reclamo.

O papai nos estimula a falar espanhol dentro de casa, mas duvido de que era isso que ele tivesse em mente. E, até onde sabemos, Nate é fluente na língua.

Ele para no grande piano e olha para nós.

— Alguém toca?

— A Bronwyn — responde Maeve antes de eu sequer abrir a boca. Fico parada na porta, de braços cruzados, enquanto ela se senta na poltrona de couro favorita do papai, diante da porta de correr que leva para a piscina. — Ela é muito boa.

— Ah, é? — pergunta Nate no mesmo momento que digo:

— Não sou, não.

— Você é — insiste Maeve.

Franzo os olhos e minha irmã arregala os dela em falsa inocência.

Nate passa pela enorme estante de livros de nogueira que cobre uma parede, e pega uma foto minha e de Maeve com o mesmo sorriso de janelinha nos dentes diante do castelo da Cinderela na Disneylândia. Ela foi tirada seis meses antes do diagnóstico de Maeve, e por um longo tempo foi a única foto de férias que tivemos. Ele examina a imagem, depois dá uma olhadela para mim com um sorrisinho. Maeve estava certa a respeito da boca de Nate; ela é sexy.

— Você deveria tocar alguma coisa.

Bem, é mais fácil do que falar com ele.

Eu vou até o banco, me sento e ajusto a partitura diante de mim. É “Variações do Cânone”, que eu venho ensaiando há meses. Tenho aulas desde os 8 anos e sou tecnicamente bem competente, mas nunca fiz as pessoas sentirem alguma coisa. “Variações do Cânone” é a primeira obra que me fez querer tentar. Tem algo na maneira como ela cresce, começando suave e amena, e depois ganhando volume e intensidade até ser quase raivosa. Esta é a parte mais difícil, porque em dado momento as notas se tornam agressivas, beirando o destoante, e eu não consigo reunir forças para tocá-las.

Não toco “Variações do Cânone” há mais de uma semana. A última vez que me atrevi, errei tantas notas que até Maeve fez cara feia. Ela parece ter se lembrado, porque olhou de lado para Nate e disse:

— Esta é uma música realmente difícil.

Como se tivesse se arrependido subitamente de me colocar para passar vergonha. Mas que se dane. Esta situação toda é surreal demais para ser levada a sério. Se eu acordasse amanhã e Maeve me dissesse que sonhei com tudo isso, eu acreditaria completamente.

Então começo, e imediatamente a música parece diferente. Mais solta, com menos esforço para chegar às partes mais difíceis. Por alguns minutos, eu me esqueço das pessoas na sala e curto ver as notas, que geralmente me derrubam, fluírem facilmente, até mesmo o crescendo — eu não o ataco com tanta energia quanto é necessário, mas sou mais rápida e segura do que o normal, e não erro uma única nota. Quando termino, dou um sorriso triunfante para Maeve, e só então, quando os olhos dela se dirigem para Nate, que me lembro de que tenho uma plateia formada por duas pessoas.

Ele está apoiado na estante de livros, de braços cruzados, e para variar não parece entediado ou prestes a me zoar.

— Isso foi a melhor coisa que ouvi na vida — elogia Nate.


Addy

Sexta-feira, 28 de setembro, 19h

Meu Deus, a minha mãe. Ela está realmente flertando com o agente Budapest, aquele com o rosto rosado e sardento e com umas entradas no cabelo.

— Claro que Adelaide fará qualquer coisa para ajudar — garante minha mãe, com uma voz sensual, passando o dedo pela borda da taça de vinho.

Justin está jantando com os pais, que odeiam minha mãe e nunca a convidam. Esse é o castigo dele, embora talvez Justin não saiba disso.

O agente Budapest chegou na hora em que estávamos terminando de comer o prato vegetariano tailandês que minha mãe sempre pede quando minha irmã, Ashton, vem nos visitar. Agora ele não sabe para onde olhar, então concentra os olhos no arranjo de flores secas na parede da sala de estar. Minha mãe redecora a casa a cada seis meses, e o último tema é “chique decadente”, com uma estranha pegada praiana. Rosas de cem pétalas e conchas até onde os olhos enxergam.

— Só uma questão complementar se não se importa, Addy — explica ele.

— Ok — concordo.

Estou surpresa de ele estar aqui, uma vez que pensei que já tínhamos respondido a todas as perguntas do agente Budapest. Mas acho que a investigação continua firme e forte. Hoje o laboratório do Sr. Avery estava cercado por fitas amarelas, e policiais entravam e saíam do colégio o dia inteiro. Cooper disse que o Colégio Bayview provavelmente vai ficar em maus lençóis por ter óleo de amendoim na água ou algo assim.

Eu olho de relance para minha mãe. Os olhos estão fixos no agente Budapest, mas com aquela expressão distante que eu conheço bem. Mentalmente ela já se despediu; provavelmente está planejando os looks do fim de semana. Ashton entra na sala de estar e se instala na poltrona à minha frente.

— O senhor está falando com todos os jovens que estavam na detenção naquele dia? — pergunta ela.

O agente Budapest pigarreia.

— A investigação está em andamento, mas estou aqui porque tenho uma pergunta específica para Addy. Você esteve na sala da enfermeira no dia em que Simon morreu, correto?

Eu hesito e lanço uma olhadela para Ashton, depois volto a olhar para o agente Budapest.

— Não.

— Você esteve — retruca o agente Budapest. — Está no registro da enfermeira.

Eu olho para a lareira, mas sinto o olhar penetrante de Ashton. Enrolo uma mecha de cabelo no dedo e o puxo nervosamente.

— Eu não me lembro disso.

— Você não se lembra de ir à sala da enfermeira na segunda-feira?

— Bem, eu vou muitas vezes — respondo rapidamente. — Por causa de dores de cabeça e coisas assim. Provavelmente fui lá por causa disso. — Franzo a testa, como se estivesse pensando bem, e finalmente encaro o olhar do agente Budapest. — Ah, certo. Eu estava menstruada e sentindo cólicas horríveis, então, sim. Eu precisava de Tylenol.

O agente Budapest é daqueles que ficam ruborizados. Ele fica vermelho quando sorrio educadamente e solto o cabelo.

— Por que o senhor quer saber? — pergunta Ashton.

Ela ajeita uma almofada atrás do corpo de maneira que o desenho de estrelas-do-mar, feito com conchas de verdade, não machuque as costas.

— Bem, uma das coisas que estamos apurando é o motivo de aparentemente não ter nenhuma caneta de adrenalina na sala da enfermeira durante o ataque alérgico do Simon. A enfermeira jura que havia várias canetas naquela manhã, mas elas sumiram à tarde.

Ashton se ajeita e diz:

— O senhor não pode estar pensando que Addy pegou as canetas!

Minha mãe se volta para mim com um olhar levemente surpreso, mas não fala nada.

Se o agente Budapest nota que minha irmã assumiu o papel de responsável ali, ele não menciona o fato.

— Ninguém está dizendo isso. Mas você por acaso viu se as canetas estavam na sala, então, Addy? De acordo com o registro da enfermeira, você esteve lá às 13 horas.

Meu coração está disparado de uma maneira incômoda, mas mantenho o tom de voz sob controle.

— Nem sei como é a aparência de uma caneta de adrenalina.

Ele me faz dizer tudo de que me lembro da detenção, novamente, e depois dispara um bando de perguntas sobre a postagem no Tumblr. Ashton está completamente interessada e alerta, debruçada para a frente e interrompendo o tempo todo, enquanto minha mãe vai à cozinha duas vezes para encher a taça de vinho. Não paro de olhar para o relógio, porque Jake e eu temos que ir à praia em breve; nem comecei a retocar a maquiagem. A espinha não vai se cobrir sozinha.

Quando o agente Budapest finalmente se apronta para ir embora, ele me entrega um cartão de visitas.

— Ligue se você se lembrar de mais alguma coisa, Addy — diz ele. — Nunca se sabe o que pode ser importante.

— Ok — respondo, enquanto enfio o cartão no bolso detrás das calças jeans.

O oficial se despede de minha mãe e de Ashton quando abro a porta para ele. Ashton se apoia no batente da porta ao meu lado, e nós vemos o agente Budapest entrar na patrulhinha e sair devagar, de marcha a ré, da nossa garagem.

Eu noto o carro de Justin esperando para entrar logo atrás do policial, e aquilo me faz entrar em ação novamente. Eu não quero ter que falar com ele e ainda não retoquei a maquiagem, então fujo para o segundo andar com Ashton me seguindo. Meu quarto é o maior da casa (a não ser pelo de casal) e era o de Ashton até eu assumi-lo quando ela se casou. Minha irmã ainda fica à vontade ali, como se nunca tivesse ido embora.

— Você não me contou sobre o lance do Tumblr — comenta ela ao se esparramar na minha colcha branca de ilhós e abrir o último número da US Weekly. Ashton é ainda mais loura do que eu, mas seu cabelo está cortado em camadas na altura do queixo, um corte que nossa mãe odeia. Eu acho bonito. Se Jake não amasse tanto meu cabelo, eu consideraria um corte assim.

Eu me sento à penteadeira e passo corretivo na espinha que havia encontrado mais cedo.

— Alguém está sendo escroto, só isso.

— Você realmente não lembrava de ter estado na sala da enfermeira? Ou apenas não queria responder? — pergunta Ashton.

Eu me atrapalho com a tampa do corretivo, mas escapo de responder quando meu telefone berra “Only Girl” da Rihanna como tom de mensagem de texto, na mesinha de cabeceira. Ashton pega o aparelho e avisa:

— Jake está quase aqui.

— Cruzes, Ash. — Olho sério para ela, pelo espelho. — Você não deveria olhar o meu telefone assim. E se fosse uma mensagem particular?

— Desculpe — responde Ashton num tom de quem totalmente não pedia desculpas. — Tudo bem com Jake?

Eu me viro na cadeira para encará-la, de testa franzida.

— Por que não estaria?

Ashton ergue a mão para mim.

— Foi apenas uma pergunta, Addy. Não estou insinuando nada. — O tom dela fica sério. — Não há motivo para pensar que você vai acabar como eu. Não é como se Charlie e eu tivéssemos sido namorados de colégio.

Eu pestanejo para ela, surpresa. Tipo, venho pensando há algum tempo que as coisas não vão bem entre Ashton e Charlie — por um lado, ela passou subitamente a aparecer aqui muitas vezes, e, por outro, ele deu muito em cima de uma dama de honra piranha no casamento do nosso primo, no mês passado —, mas Ashton nunca chegou e admitiu que havia um problema antes.

— As coisas estão… hã, muito ruins?

Ela dá de ombros, solta a revista e fica cutucando as unhas.

— É complicado. Casamento é bem mais difícil do que qualquer um diz. Agradeça por você ainda não ter que tomar decisões de vida. — Ela franze a boca. — Não deixe que a mamãe te influencie e distorça tudo. Apenas curta ter 17 anos.

Não posso. Tenho medo de que tudo seja arruinado. Que já esteja arruinado.

Eu queria poder contar isso para Ashton. Seria um alívio tão grande fugir. Eu geralmente conto tudo para Jake, mas não posso contar isso. E, depois dele, literalmente não há ninguém no mundo em quem eu confie. Em nenhum dos meus amigos, certamente não na minha mãe, e não na minha irmã. Porque, embora a minha irmã provavelmente esteja bem intencionada, ela é extremamente passiva-agressiva em relação a Jake.

A campainha toca, e a boca de Ashton se contorce num meio sorriso.

— Deve ser o Sr. Perfeito — diz ela, com sarcasmo, bem na hora.

Eu a ignoro, desço correndo a escada e abro a porta com o sorrisão que não consigo conter quando estou com Jake. E lá está ele, no seu agasalho de futebol, com o cabelo castanho desgrenhado pelo vento, dando exatamente o mesmo sorrisão de volta.

— Oi, gata.

Eu estou prestes a beijá-lo quando vislumbro outra figura atrás dele e travo.

— Você não se importa se dermos carona para o TJ, né?

Um riso nervoso surge na minha garganta, e eu o contenho.

— Claro que não. — Eu consigo meu beijo, mas o momento está arruinado.

TJ olha para mim, depois para o chão.

— Foi mal. Meu carro quebrou, e eu ia ficar em casa, mas Jake insistiu…

Jake dá de ombros.

— Era meu caminho para cá mesmo. Não há motivo para perder o passeio por causa de defeito no carro. — Os olhos dele descem do meu rosto para os tênis de lona, e ele pergunta: — Você vai com isso, Ads?

Não é exatamente uma crítica, mas estou usando o moletom universitário de Ashton, e Jake nunca gostou de mim em roupas muito largas.

— Vai estar frio na praia — respondo hesitantemente, e ele sorri.

— Eu te mantenho aquecida. Vá colocar algo mais bonitinho, hein?

Dou um sorriso tenso e volto para dentro, subo a escada arrastando os pés porque sei que não estive ausente por tempo suficiente para Ashton ter saído do meu quarto. De fato, ela ainda está folheando a US Weekly na minha cama e franze as sobrancelhas quando me dirijo ao closet.

— De volta tão cedo?

Puxo um par de leggings e desabotoo o jeans.

— Estou trocando de roupa.

Ashton fecha a revista e me observa em silêncio até eu trocar o moletom dela por um suéter justo.

— Você não vai estar aquecida o suficiente nisso aí. Está frio hoje à noite. — Ela contém um riso de descrença quando tiro os tênis e coloco um par de sandálias de tiras e saltinho. — Você vai calçar isso para ir à praia? Essa mudança de roupa foi ideia de Jake?

Eu jogo as roupas descartadas no cesto e ignoro minha irmã.

— Tchau, Ash.

— Addy, espera.

O tom sarcástico sumiu da voz de Ashton, mas não me importo. Desço a escada e estou lá fora antes que ela possa me impedir, e entro na brisa que me provoca arrepios imediatamente. Jake me dá um sorriso de aprovação e abraça meus ombros para a curta caminhada até o carro.

Odeio o passeio inteiro. Odeio ficar sentada ali, agindo normalmente, quando quero vomitar. Odeio ficar ouvindo Jake e TJ falar do jogo de amanhã. Odeio quando toca a música mais nova do Fall Out Boy e TJ diz “adoro essa música”, porque agora não posso mais gostar dela. Mas, principalmente, odeio o fato de que, pouco mais de um mês depois da minha inesquecível primeira vez com Jake, eu fiquei bêbada que nem uma cachaceira e transei com TJ Forrester.

Quando chegamos à praia, Cooper e Luis já estão acendendo a fogueira, e Jake dá um resmungo de frustração ao colocar a marcha em ponto morto.

— Eles fazem errado toda vez — reclama ele, que pula do carro na direção dos outros. — Pessoal, vocês estão próximos demais da água!

TJ e eu saímos do carro mais lentamente, sem nos olharmos. Eu já estou co