Principal É Assim que Acaba

É Assim que Acaba

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Lily nem sempre teve uma vida fácil, mas isso nunca a impediu de trabalhar arduamente para conquistar a vida tão sonhada. Ela percorreu um longo caminho desde a infância, em uma cidadezinha no Maine: se formou em marketing, mudou para Boston e abriu a própria loja. Então, quando se sente atraída por um lindo neurocirurgião chamado Ryle Kincaid, tudo parece perfeito demais para ser verdade.

Ryle é confiante, teimoso, talvez até um pouco arrogante. Ele também é sensível, brilhante e se sente atraído por Lily. Porém, sua grande aversão a relacionamentos é perturbadora. Além de estar sobrecarregada com as questões sobre seu novo relacionamento, Lily não consegue tirar Atlas Corrigan da cabeça — seu primeiro amor e a ligação com o passado que ela deixou para trás. Ele era seu protetor, alguém com quem tinha grande afinidade. Quando Atlas reaparece de repente, tudo que Lily construiu com Ryle fica em risco.

Ano:
2018
Idioma:
portuguese
ISBN:
6eaa5da6-7ec0-4fe1-8d9d-2dc85ada2f7c
Arquivo:
PDF, 1,32 MB
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Frases chave

 
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meus165
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casa165
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16 comments
 
Ana Júlia
Um dos melhores livros que já li, trata de temas muito importantes de forma que te prende e faz pensar sobre.
09 April 2021 (18:45) 
Ana
Que livro ! ?
Muito necessário . Principalmente para adquirir mais entendimento sobre o tema que é abordado.
08 June 2021 (04:36) 
Gabriela
Esse livro é tão pesado mas tão necessário!! Virou meu fav
08 July 2021 (17:23) 
Anna B
Cara, bizarro o quanto esse livro me envolveu.
Vale muito a pena, sério, leiam.
13 July 2021 (05:09) 
anne
mto bom, amei mto Mas amei mais tarde demais da autora...
09 August 2021 (03:41) 
júlia real
está com a capa de outro livro
25 August 2021 (16:05) 
Kássia
Muitoooo bom! Alguns erros ortográficos no PDF e algumas palavras trocadas mas eu amei a experiência!!!!
03 September 2021 (18:46) 
daniela
INCRIVEL!!!! Cm certeza um dos meus livros fav da Colleen Hoover
04 September 2021 (00:29) 
Ge
Mds chorei q nem louca no fim. Mt bom! Vale a pena, li em 3 dias. Seria uma experiencia melhor ter o livro em mão mas msm assim, mt bom o pdf dele.
18 September 2021 (19:25) 
Eda Navarro Simões
O nome do livro tem absolutamente tudo a ver com a história! Não conseguia parar de ler!!! Recomendo!
21 September 2021 (07:39) 
aalicessly
O livro é muito bom!! Super recomendo, li ele me 4 dias. Me envolvi mt na história. E esse foi um dos meus primeiros livros e foi uma experiência mt boa.
14 October 2021 (06:04) 
Ana Gabriela Nogueira Martins
Gente, que livro é esse? Sério, muito bom li em um dia, esse livro me envolveu tanto que eu não conseguia parar de ler, madruguei lendo, porque esse livro é realmente muito bom... Chorei até desidratar... Uns dos meus livros Favoritos, recomendei para todos que eu conheço. Colleen Hoover você merece um prêmio...
02 November 2021 (05:06) 
Bruna
Livro muito bom, a historia te intriga a ler cada vez mais.
07 November 2021 (16:57) 
Eniemes4L
Simplesmente perfeito! Todos deveriam ler este livro.
24 November 2021 (21:18) 
ovelha_loka
Nossa nunca chorei tanto e o final nossa Emerson Dori eu ri com esse nome e eles abordaram esse tema bem leve e é uma leitura rápida é um ótimo livro para quem tem vontade de começar a ler tem personagens marcantes vários e tem um casal que me arranca risadas e sem contar que esse livro me ensinou a ser mais observadora as pessoas da minha volta e nunca julgar auguem pela primeira vista
25 November 2021 (16:56) 
joyce
é PERFEITO tem umas parte meio... mas é mt bom
04 December 2021 (14:18) 

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1

Confess

Ano:
2016
Idioma:
portuguese
Arquivo:
PDF, 742 KB
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Giochi maliziosi - 5

Idioma:
italian
Arquivo:
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Obras da autora publicadas pela Galera Record
Série Slammed
Métrica
Pausa
Essa garota
Série Hopeless
Um caso perdido
Sem esperança
Em busca de Cinderela
Série Nunca jamais
Nunca jamais
Nunca jamais: parte dois
O lado feio do amor
Talvez um dia
Novembro, 9
Confesse
É assim que acaba

Tradução:
Priscila Catão

1ª edição

Rio de Janeiro | 2018

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
H759a
Hoover, Colleen, 1979É assim que acaba [recurso eletrônico] / Colleen Hoover ; tradução Priscila Catão. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Galera
Record, 2018.
recurso digital
Tradução de: It ends with us
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN 978-85-01-11349-8 (recurso eletrônico)
1. Ficção infantojuvenil americana. 2. Livros eletrônicos. I. Catão, Priscila. II. Título.
17-46635
CDD: 028.5
CDU: 087.5
Título original:
It ends with us
Copyright © 2016 Colleen Hoover
Copyright da edição em português © 2018 por Editora Record LTDA.
Publicado mediante acordo com a editora original,
Atria Books, um selo da Simon & Schuster, Inc.
Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios.
Os direitos morais do autor foram assegurados.
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Editoração eletrônica da versão impressa: Abreu’s System
Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela
EDITORA RECORD LTDA.
Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: (21) 2703-1987, que se reserva a propriedade literária desta tradução.
Produzido no Brasil
ISBN 978-85-01-11349-8
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lançamentos e nossas promoções.
Atendimento e venda direta ao leitor:
mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002.

Para meu pai, por fazer o que pôde para não mostrar o pior de si.
E para minha mãe, por garantir que nunca víssemos o pior dele.

Sumário
Parte Um
Capítulo Um; 
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Capítulo Treze
Capítulo Catorze
Capítulo Quinze
Capítulo Dezesseis
Capítulo Dezessete
Parte Dois
Capítulo Dezoito
Capítulo Dezenove
Capítulo Vinte
Capítulo Vinte e Um
Capítulo Vinte e Dois
Capítulo Vinte e Três
Capítulo Vinte e Quatro
Capítulo Vinte e Cinco
Capítulo Vinte e Seis
Capítulo Vinte e Sete
Capítulo Vinte e Oito
Capítulo Vinte e Nove
Capítulo Trinta
Capítulo Trinta e Um
Capítulo Trinta e Dois
Capítulo Trinta e Três
Capítulo Trinta e Quatro
Capítulo Trinta e Cinco
Epílogo

Nota da Autora
Agradecimentos

Parte Um

Capítulo Um
Enquanto estou aqui sentada, com um pé em cada lado do parapeito, observando as ruas de Boston a doze
andares abaixo, pensar em suicídio é inevitável.
Não no meu. Gosto o suficiente de minha vida para querer vivê-la.
Estou pensando em outras pessoas e em como decidem simplesmente acabar com a própria vida.
Será que elas se arrependem em algum momento? No instante depois de se jogar, e no segundo antes do
impacto deve haver algum remorso durante aquela breve queda livre. Será que veem o chão se
aproximando depressa e pensam: Ah, que droga, que ideia péssima!
Por algum motivo, acho que não.
Penso muito na morte. Ainda mais hoje, considerando que acabei de — doze horas antes — fazer um
dos discursos fúnebres mais épicos que o povo de Plethora, no Maine, já testemunhou. Tudo bem, talvez
não tenha sido o mais épico, mas poderia muito bem ser o mais desastroso. Acho que depende se a
pergunta for feita para mim ou para minha mãe. Minha mãe, que provavelmente vai passar um ano
inteiro sem falar comigo depois de hoje.
Não me entenda mal: meu discurso fúnebre não foi tão marcante a ponto de entrar para a história,
como o de Brooke Shields no funeral de Michael Jackson. Ou o da irmã de Steve Jobs. Ou o do irmão de
Pat Tillman. Mas foi épico à própria maneira.
No início, fiquei nervosa. Afinal, era o funeral do extraordinário Andrew Bloom. Prefeito
idolatrado de minha cidade natal: Plethora, no Maine. Dono da agência imobiliária de maior sucesso da
cidade. Marido da idolatrada Jenny Bloom, a mais reverenciada professora auxiliar de toda Plethora. E
pai de Lily Bloom, aquela garota estranha, de excêntrico cabelo ruivo, que certa vez se apaixonou por um
mendigo e envergonhou toda a família.
Eu sou Lily Bloom, e Andrew era meu pai.
Assim que terminei o discurso fúnebre, peguei um voo para Boston e sequestrei o primeiro telhado
que encontrei. Mais uma vez, não porque sou suicida. Não tenho nenhum plano de saltar deste telhado.
Só precisava de ar fresco e silêncio, nada mais. Algo impossível de conseguir em meu apartamento no
terceiro andar, sem acesso ao telhado, e morando com uma garota que adora se ouvir cantando.
Porém, não pensei em como estaria frio aqui em cima. Não está insuportável, mas também não está
nada confortável. Pelo menos dá para ver as estrelas. Pais falecidos, irritantes colegas de apartamento e
discursos fúnebres questionáveis não parecem nada mal quando o céu noturno está límpido o suficiente
para, literalmente, espelhar o esplendor do universo.
Amo quando o céu me faz sentir insignificante.
Estou gostando desta noite.
Bem... vou reformular a frase para que ela reflita meus sentimentos de maneira mais apropriada, no
passado.
Eu estava gostando desta noite.
Mas, para minha infelicidade, a porta foi aberta com tanta força que quase esperei ver a escada
cuspir um humano no telhado. A porta se fecha novamente, e passos se movem com pressa pelo piso. Não
me dou o trabalho de erguer o olhar. Seja quem for, é muito provável que nem me perceba em cima do
parapeito à esquerda da porta. A pessoa saiu com tanta pressa que não será culpa minha se presumir que

está sozinha.
Suspiro baixinho, fecho os olhos e encosto a cabeça na parede de estuque atrás de mim, xingando o
universo por ter me tirado o momento introspectivo de paz. O mínimo que o universo pode fazer é
garantir que seja uma mulher, não um homem. Se vou ter companhia, prefiro uma mulher. Sou durona para
meu tamanho, e provavelmente consigo me virar sozinha na maior parte das situações, mas estou relaxada
demais para ficar sozinha com um desconhecido no telhado, tarde da noite. Temo pela minha segurança e
sinto que preciso ir embora, mas não queria ir. Como disse... estou relaxada.
Finalmente permito que meus olhos percorram o trajeto até a silhueta inclinada por cima do
parapeito. Infelizmente, tenho certeza de que é um homem. Mesmo naquela posição, noto que é alto.
Ombros largos criam grande contraste em relação à maneira frágil como ele apoia a própria cabeça nas
mãos. Mal percebo o pesado subir e descer de suas costas enquanto ele inspira fundo, para exalar com
força em seguida.
Parece à beira de um colapso. Considero dizer alguma coisa, ou pigarrear, para alertá-lo de que tem
companhia, mas, antes que eu o faça, ele gira e chuta uma das cadeiras do terraço.
Eu me retraio quando o móvel arranha o telhado, mas, como ele não imagina ter plateia, não para
com um só chute. Ele atinge a cadeira repetidamente, sem parar. E, em vez de se render sob a força bruta
daquele pé, a cadeira apenas se afasta cada vez mais.
Aquela cadeira deve ser feita de polímero resistente à maresia.
Certa vez, vi meu pai atropelar uma mesa de jardim feita desse polímero: a coisa praticamente riu.
O para-choque amassou, mas a mesa nem arranhou.
O cara parece notar que não é páreo para um material de tamanha qualidade porque finalmente
desiste de chutar. Fica ali, perto do móvel, os punhos cerrados nas laterais do corpo. Para ser sincera,
sinto um pouco de inveja. Ele desconta muito bem a raiva na mobília. É óbvio que teve um dia péssimo,
assim como eu, mas enquanto guardo minha frustração até ela se manifestar de forma passivo-agressiva,
ele encontra uma verdadeira válvula de escape.
Minha válvula de escape costumava ser minha horta. Sempre que eu me estressava, era só ir até o
quintal e arrancar toda erva daninha que encontrasse. Porém, desde que me mudei para Boston, há dois
anos, não tenho mais horta. Nem terraço. Nem sequer ervas daninhas.
Talvez eu devesse investir em uma cadeira de polímero resistente à maresia.
Fico observando o rapaz mais um pouco, e me pergunto se ele não vai se mexer. Está simplesmente
parado, encarando a cadeira. Não está mais de punhos cerrados. As mãos estão apoiadas nos quadris, e
percebo que sua camisa não tem um caimento bom no bíceps. Tem um caimento ótimo no restante do
corpo, mas seus braços são enormes. Ele começa a remexer nos bolsos até encontrar o que está
procurando, e — na provável tentativa de administrar ainda mais a raiva — acende um baseado.
Tenho 23 anos, já terminei a faculdade e usei a mesma droga recreativa uma ou duas vezes. Não vou
julgar o rapaz por achar que precisa fumar sozinho. Mas é esta a questão: ele não está sozinho. Só não
sabe disso ainda.
Ele dá uma longa tragada no baseado e começa a se voltar para o parapeito. Percebe minha presença
ao expirar. Para de andar no instante que nossos olhares se encontram. Sua expressão não é de susto nem
de humor. Ele está a uns três metros de distância, mas a luz das estrelas é suficiente para que eu enxergue
seus olhos observando meu corpo sem revelar um único pensamento. Esse cara sabe esconder o jogo;
estreitando os olhos e comprimindo os lábios, ele parece a versão masculina da Mona Lisa.
— Como você se chama? — pergunta ele.
Sinto a voz no estômago. O que não é nada bom. As vozes deviam parar nos ouvidos, mas, às vezes
— não é nada comum, na verdade —, uma voz penetra em meus ouvidos e reverbera por meu corpo. Ele
tem uma dessas vozes. Grave, confiante e um pouco parecida com manteiga.
Como não respondo, ele leva o baseado à boca e dá mais uma tragada.

— Lily — revelo, por fim.
Odeio minha voz. Pareceu baixa demais para chegar a seus ouvidos, ainda mais para reverberar
dentro de seu corpo.
O cara ergue um pouco o queixo e aponta a cabeça para mim.
— Pode descer daí, por favor, Lily?
Só quando ele pede isso percebo sua postura. Está em pé, corpo ereto, até mesmo rígido. Quase
como se estivesse nervoso, achando que vou cair. Não vou. O parapeito tem no mínimo 30 centímetros de
largura, e a maior parte de mim está no telhado. Seria muito fácil me segurar antes de cair, sem falar que
o vento está a meu favor.
Olho para minhas pernas e, depois, para ele.
— Não, obrigada. Estou bem confortável aqui.
Ele se vira um pouco, como se não conseguisse me olhar diretamente.
— Por favor, desça. — Agora é mais uma ordem, apesar de ele ter dito por favor. — Tem sete
cadeiras vazias aqui.
— Por pouco não seis — corrijo, lembrando que ele quase assassinou uma delas.
Ele não acha graça na resposta. Como não obedeço à ordem, ele dá dois passos em minha direção.
— Você está a meros 7 centímetros da morte. E ela já me fez companhia por tempo demais hoje. —
Ele gesticula novamente para que eu desça. — Está me deixando nervoso. Sem falar que isso corta meu
barato.
Reviro os olhos e passo as pernas por cima do parapeito.
— Deus me livre desperdiçar um baseado. — Dou um pulo para descer e limpo as mãos na calça
jeans. — Melhorou? — pergunto, enquanto me aproximo.
O cara expira com força, como se tivesse prendido a respiração ao me ver em cima do parapeito.
Passo por ele em direção ao lado do telhado com a melhor vista e, no meio-tempo, não deixo de perceber
como ele é incrivelmente bonito.
Não. Bonito é um insulto.
O cara é lindo. Tem as mãos cuidadas, cheira a dinheiro e parece ser bem mais velho que eu. Seus
olhos se enrugam ao me seguir, e seus lábios parecem em bico, mesmo quando relaxados. Quando chego
ao lado do prédio com vista para a rua, eu me inclino e fico olhando os carros lá embaixo, tentando não
demonstrar minha admiração. Só pelo corte de cabelo já dá para perceber que esse é o tipo de homem
que impressiona facilmente, e eu me recuso a alimentar seu ego. Não que tenha feito alguma coisa para
me convencer de que é metido. Porém, está vestindo uma camisa casual da Burberry, e acho que nunca
estive no radar de alguém com dinheiro para, casualmente, comprar uma dessas.
Escuto passos se aproximando atrás de mim, e ele se inclina na grade a meu lado. De soslaio, eu o
observo dar uma tragada no baseado. Após terminar, ele o oferece, mas recuso com um gesto. A última
coisa de que preciso é me drogar perto desse cara. Sua voz já é praticamente uma droga. Meio que quero
ouvi-la de novo, então pergunto:
— Então, o que aquela cadeira fez para te deixar tão zangado?
Ele olha para mim. Quero dizer, realmente me olha. Seus olhos encontram os meus, e ele me encara
com firmeza, como se todos os meus segredos estivessem bem no rosto. Jamais vi olhos tão escuros.
Talvez eu até tenha visto, porém parecem mais escuros quando associados a uma presença tão
intimidante. Ele não me responde, mas minha curiosidade não é facilmente saciada. Se ele me obrigou a
descer de um parapeito muito confortável e tranquilo, espero que ele me entretenha com respostas para
minhas perguntas indiscretas.
— Foi uma mulher? — pergunto. — Ela partiu seu coração?
Ele ri um pouco.
— Quem me dera se meus problemas fossem tão triviais quanto assuntos do coração. — Ele se

encosta na parede e se vira para mim. — Você mora em que andar? — Lambe os dedos e aperta a
extremidade do baseado antes de guardá-lo no bolso. — Nunca te encontrei.
— É porque não moro aqui. — Aponto para meu apartamento. — Está vendo aquele prédio da
seguradora?
Ele semicerra as pálpebras enquanto olha na direção indicada.
— Ahã.
— Moro no prédio ao lado. É baixo demais para ver daqui. São só três andares.
Ele se volta para mim, apoiando o cotovelo no parapeito.
— Se mora ali, por que está aqui? É o apartamento de seu namorado ou algo assim?
Por algum motivo, seu comentário faz com que me sinta fácil. Foi óbvio demais... uma cantada
amadora. Pela aparência, sei que é mais habilidoso. Então fico com a impressão de que ele deixa as
cantadas mais difíceis somente para as mulheres ‘merecedoras’.
— Seu telhado é legal — respondo.
Ele ergue a sobrancelha, esperando que eu explique melhor.
— Eu queria tomar ar fresco. Um lugar para pensar. Abri o Google Earth e encontrei o prédio com
um terraço decente mais próximo.
Ele me olha sorrindo.
— Pelo menos você é econômica — comenta. — Essa é uma boa qualidade.
Pelo menos?
Assinto, porque sou mesmo econômica. E essa é mesmo uma boa qualidade.
— Por que estava precisando de ar fresco? — pergunta ele.
Porque enterrei meu pai hoje, fiz um discurso fúnebre epicamente desastroso e agora sinto como
se não conseguisse respirar.
Eu me viro para a frente de novo, expiro lentamente.
— A gente pode ficar um pouco em silêncio?
Ele parece aliviado com o pedido. Inclina-se por cima do parapeito e deixa o braço se balançar
enquanto olha a rua. Ele fica assim por um instante, e eu o encaro durante todo o tempo. Provavelmente
sabe que o estou observando, mas parece não se importar.
— Um cara caiu daqui no mês passado — revela ele.
Eu até teria me irritado por ele ter desrespeitado meu pedido de silêncio, mas fico um pouco
intrigada.
— Foi acidente?
Ele dá de ombros.
— Ninguém sabe. Aconteceu no fim da tarde. A esposa contou que preparava o jantar quando o
marido subiu para tirar fotos do pôr do sol. Ele era fotógrafo. Acham que estava se inclinando por cima
do parapeito para tirar uma foto do horizonte, e acabou escorregando.
Olho por cima do parapeito, me perguntando como alguém se coloca em uma situação com risco real
de acidente, mas então me lembro de que estava sentada no parapeito do outro lado do teto há apenas
alguns minutos.
— Quando minha irmã me contou o que aconteceu, fiquei pensando se ele tinha conseguido a foto ou
não. Torci para que a câmera não tivesse caído também, porque teria sido o maior desperdício, sabe?
Morrer por causa do amor pela fotografia, mas sem conseguir a foto que custou sua vida.
O pensamento me faz rir, mas não sei se devia achar graça.
— Você sempre diz exatamente o que pensa?
Ele dá de ombros.
— Para a maioria das pessoas, não.
Isso aumenta meu sorriso. Fico feliz em saber que, mesmo sem me conhecer, por algum motivo ele

não me considera a maioria das pessoas.
Ele apoia as costas no parapeito e cruza os braços.
— Você nasceu aqui?
Balanço a cabeça.
— Não. Eu me mudei do Maine depois da formatura.
Ele enruga o nariz, o que é meio sensual. Ver esse homem — usando uma camisa da Burberry e com
um corte de cabelo de duzentos dólares — fazendo careta.
— Então está no purgatório de Boston, é? Deve ser péssimo.
— Como assim? — pergunto.
Ele retorce o canto da boca.
— Os turistas a tratam como nativa, enquanto os nativos a tratam como uma turista.
Rio.
— Uau! Que descrição mais precisa.
— Estou aqui há dois meses. Nem cheguei ao purgatório ainda, então está se saindo melhor que eu.
— Por que veio a Boston?
— Minha residência. E minha irmã mora aqui. — Ele bate o pé. — Bem aqui embaixo, na verdade.
Casou com um especialista em tecnologia daqui de Boston, e eles compraram o último andar.
Olho para baixo.
— O último andar inteiro?
Ele confirma com a cabeça.
— O filho da mãe é um sortudo que trabalha de casa. Nem precisa tirar o pijama e ganha mais de
sete dígitos por ano.
É mesmo um filho da mãe sortudo.
— Que tipo de residência? Você é médico?
Ele assente.
— Neurocirurgião. Falta menos de um ano para terminar a residência, depois disso é oficial.
Estiloso, eloquente e inteligente. E fuma maconha. Se fosse uma questão do vestibular, eu
perguntaria qual alternativa não combina com as outras.
— E médicos deviam fumar maconha?
Ele abre um sorriso irônico.
— Provavelmente não. Mas, se a gente não se desse esse luxo de vez em quando, juro que o número
de médicos pulando desses parapeitos seria bem maior.
Ele está virado para a frente de novo, apoiando o queixo nos braços. Está de olhos fechados, como
se aproveitasse o vento no rosto. Assim, não parece tão intimidante.
— Quer saber de algo que só quem mora em Boston sabe?
— Claro — responde ele, voltando a atenção para mim.
Aponto para o leste.
— Está vendo aquele prédio? Com o teto verde?
Ele assente.
— Há um prédio atrás dele, na rua Melcher. Tem uma casa em cima do prédio. Tipo, uma casa
mesmo, construída bem no teto. Não dá para ver da rua, e o prédio é tão alto que poucas pessoas sabem
disso.
Ele fica impressionado.
— Sério?
Confirmo com a cabeça.
— Vi quando estava procurando no Google Earth, então pesquisei o local. Pelo visto concederam
uma licença para a construção em 1982. Deve ser muito legal, não acha? Morar em uma casa no topo de

um prédio.
— O telhado seria todo seu — argumenta ele.
Eu não tinha pensado nisso. Se eu fosse dona do telhado, poderia ter hortas. Eu teria uma válvula de
escape.
— Quem mora lá? — pergunta ele.
— Ninguém sabe. É um dos grandes mistérios de Boston.
Ele ri e depois me olha com curiosidade.
— Qual seria outro grande mistério de Boston?
— Seu nome.
Assim que digo isso, dou um tapa na própria testa. Soou como uma cantada muito brega, e tudo o
que posso fazer é rir de mim mesma.
Ele sorri.
— É Ryle — revela ele. — Ryle Kincaid.
Suspiro, me encolhendo.
— Que nome incrível.
— Por que isso a deixou triste?
— Porque eu faria de tudo para ter um nome legal.
— Não gosta de Lily?
Inclino a cabeça e ergo a sobrancelha.
— Meu sobrenome é... Bloom, florescer em inglês.
Ele fica em silêncio. Sinto que tenta não demonstrar piedade.
— Eu sei. É péssimo. É o nome de uma menina de 2 anos, não de uma mulher de 23.
— Uma menina de 2 anos sempre vai ter o mesmo nome, independentemente da idade. Nós não nos
livramos do nome quando envelhecemos, Lily Bloom.
— Que pena — rebato. — Mas o pior é que adoro jardinagem. Amo flores. Plantas. Cultivar coisas.
É minha paixão. Sempre foi meu sonho abrir uma floricultura, mas tenho medo de que as pessoas não
julguem uma vontade autêntica. Pensem que só estou tentando me aproveitar de meu nome, que ser uma
florista não é o trabalho de meus sonhos.
— Pode ser — comenta ele. — Mas por que isso importa?
— Acho que não importa. — Noto que estou sussurrando. — Lily Bloom. — Eu o vejo abrir um
sorriso. — É um ótimo nome para uma floricultura. Mas tenho mestrado em administração. Seria dar um
passo atrás, não acha? Trabalho para a maior empresa de marketing em Boston.
— Ser dona do próprio negócio não é dar um passo atrás — argumenta ele.
Ergo a sobrancelha.
— A não ser que dê errado.
Ele assente, concordando.
— A não ser que dê errado — concorda. — E qual seu nome do meio, Lily Bloom?
Resmungo, e ele se anima com isso.
— Quer dizer que é ainda pior?
Apoio a cabeça nas mãos e faço que sim.
— Rose?
Balanço a cabeça.
— Violet?
— Quem me dera. — Eu me contraio e murmuro. — Blossom. Desabrochar em inglês.
Há um momento de silêncio.
— Caramba! — exclama ele, baixinho.
— Pois é. Blossom era o sobrenome de solteira de minha mãe, e meus pais acharam que os

sobrenomes sinônimos eram um sinal do destino. Então claro que, quando nasci, quiseram me dar um
nome de flor.
— Seus pais devem ser uns babacas.
Um deles é. Era.
— Meu pai morreu esta semana.
Ele olha para mim.
— Ah, tá. Não vou cair nessa.
— Estou falando sério. Por isso vim até aqui hoje. Acho que eu estava precisando chorar um pouco.
Ele fica me encarando por um instante, desconfiado, para ter certeza de que não o estou enganando.
Mas não se desculpa pela gafe. Em vez disso, os olhos ficam um pouco mais curiosos, como se ele
estivesse realmente intrigado.
— Vocês eram próximos?
Que pergunta difícil. Apoio o queixo nos braços e volto a olhar a rua.
— Não sei — respondo, dando de ombros. — Como filha, eu o amava. Mas como ser humano, eu o
odiava.
Sinto que ele continua me observando, depois diz:
— Gosto disso. De sua sinceridade.
Ele gosta de minha sinceridade. Devo estar corando.
Ficamos em silêncio por mais um tempo, até que ele pergunta:
— Você às vezes deseja que as pessoas fossem mais transparentes?
— Como assim?
Ele passa o polegar em um pedaço de estuque descascado até soltá-lo. Dá um peteleco, jogando-o
por cima do parapeito.
— Sinto que todo mundo finge ser quem é, que, no fundo, somos todos igualmente ferrados. Alguns
apenas escondem isso melhor que os outros.
Ou ele está ficando meio chapado, ou é muito introspectivo. Seja como for, acho bom. Minhas
conversas preferidas são as sem nenhuma resposta real.
— Não acho um pouco de reserva ruim — avalia Lily. — Nem sempre as verdades nuas e cruas são
bonitas.
Ele me encara por um instante.
— Verdades nuas e cruas — repete ele. — Gostei disso.
Ele se vira e vai até o meio do telhado. Ajeita o encosto de uma espreguiçadeira atrás de mim e
depois se acomoda ali. É reclinável, então ele põe as mãos atrás da cabeça e observa o céu. Vou para a
do lado e me ajeito até ficar na mesma posição.
— Me conte uma verdade nua e crua, Lily.
— Sobre o quê?
Ele dá de ombros.
— Não sei. Algo de que você não se orgulha. Algo que me faça sentir menos ferrado.
Ele encara o céu, esperando minha resposta. Meus olhos seguem a linha de seu maxilar, a curva das
bochechas, o contorno dos lábios. Suas sobrancelhas estão unidas, contemplativas. Não sei o motivo, mas
ele parece precisar de uma conversa. Penso na pergunta e tento encontrar uma resposta sincera. Quando
consigo, desvio o olhar e volto a encarar o céu.
— Meu pai era violento. Não comigo... com minha mãe. Ficava tão alterado quando brigavam que,
às vezes, até batia nela. Quando isso acontecia, ele passava uma ou duas semanas tentando recompensá-la
pelo que acontecera; comprava flores ou nos levava para jantar fora. Às vezes, ele comprava alguma
coisa para mim porque sabia como eu odiava essas brigas. Quando eu era criança, ansiava por elas,
porque sabia que, se ele batesse em minha mãe, as duas semanas seguintes seriam ótimas. — Paro. Acho

que nunca admiti isso nem para mim mesma. — Claro que, se fosse possível, eu nunca permitiria que a
machucasse. Mas a violência era inevitável no casamento dos dois e se tornou nosso padrão. Quando
fiquei mais velha, percebi que não fazer nada também me tornava culpada. Passei boa parte da vida o
odiando por ser uma pessoa tão ruim, mas não sei se sou melhor. Talvez nós dois sejamos pessoas ruins.
Ryle olha para mim, pensativo.
— Lily — diz ele, enfaticamente. — Não existe isso de pessoas ruins. Todos nós somos humanos e,
às vezes, fazemos coisas ruins.
Abro a boca para responder, mas suas palavras me deixam em silêncio. Todos nós somos humanos
e, às vezes, fazemos coisas ruins. Acho que isso é verdade, de certa maneira. Ninguém é exclusivamente
ruim ou exclusivamente bom. Algumas pessoas só precisam se esforçar mais para suprimir o lado ruim.
— Sua vez — digo a ele.
Com base em sua reação, acho que não quer participar da própria brincadeira. Ele suspira fundo e
passa a mão no cabelo. Abre a boca para falar, mas depois a fecha de novo. Fica pensando por um
instante, finalmente diz:
— Vi um garotinho morrer esta noite. — A voz sai abatida. — Só tinha 5 anos. Ele e o irmão mais
novo encontraram uma arma no quarto dos pais. Enquanto o mais novo a segurava, o revólver disparou
por acidente.
Meu estômago se revira. Acho que isso já é verdade demais para mim.
— Quando ele chegou à mesa de cirurgia, não dava para fazer mais nada. Todo mundo ao redor, as
enfermeiras, os outros médicos... todos sentiram muita pena da família. “Coitados dos pais”, disseram.
Mas, quando fui até a sala de espera dar a notícia aos dois, não senti um pingo de pena. Eu queria que
sofressem. Queria que sentissem o peso de sua ignorância ao deixar uma arma carregada ao alcance de
crianças inocentes. Queria que entendessem que, além de perder um filho, tinham arruinado a vida do que
puxou o gatilho.
Meu Deus. Eu não estava preparada para algo tão pesado.
Nem consigo imaginar como uma família supera uma coisa assim.
— Coitado do irmão do garoto — comento. — Não consigo imaginar como isso vai afetá-lo...
testemunhar algo desse nível.
Ryle dá um peteleco em alguma coisa na calça jeans.
— É algo que vai destruir sua vida, é isso que vai acontecer.
Eu me viro para ele, ficando de lado e apoiando a cabeça na mão.
— É difícil? Ver essas coisas todo dia?
Ele balança um pouco a cabeça.
— Devia ser muito mais difícil, porém, quanto mais tempo passo perto da morte, mais se torna parte
da vida. Não sei como me sinto em relação a isso. — Ele faz contato visual de novo. — Me conte outra
— pede. — Acho que a minha foi mais perturbadora que a sua.
Discordo, mas confesso a coisa perturbadora que fiz há apenas doze horas.
— Dois dias atrás, minha mãe me pediu para fazer o discurso fúnebre no enterro de meu pai. Eu
disse que não ficaria à vontade, que não conseguiria encarar a multidão, que cairia em prantos, mas era
mentira. Eu simplesmente não queria; acho que discursos fúnebres devem ser feitos por pessoas que
respeitam o falecido. E eu não respeitava muito meu pai.
— Você fez o discurso?
Confirmo com a cabeça.
— Fiz. Hoje de manhã. — Eu me sento e puxo as pernas para debaixo do corpo enquanto continuo,
virada para ele: — Quer escutar?
Ele sorri.
— Com certeza.

Ponho as mãos no colo e respiro fundo.
— Eu não fazia ideia do que dizer. Cerca de uma hora antes do funeral, eu avisei minha mãe de que
não queria discursar. Ela pediu algo simples, disse que deixaria meu pai feliz. Garantiu que eu só
precisaria ir até o púlpito dizer cinco coisas boas sobre meu pai. Então... foi exatamente o que fiz.
Ryle se apoia no cotovelo, parecendo ainda mais interessado. Ele nota, em meu olhar, que a situação
vai piorar.
— Ah, não, Lily. O que você fez?
— Vou reencenar.
Levanto e sigo até o outro lado da espreguiçadeira. Eu me empertigo e ajo como se estivesse
olhando para a mesma plateia com que me deparei pela manhã. Pigarreio.
— Oi. Meu nome é Lily Bloom, filha do falecido Andrew Bloom. Agradeço a presença de todos
aqui hoje, em luto por essa perda. Eu queria aproveitar este momento para homenagear a vida de meu pai
e compartilhar com vocês cinco coisas boas sobre ele. A primeira...
Olho para Ryle e dou de ombros.
— Foi isso.
Ele se senta.
— Como assim?
Eu me sento na espreguiçadeira e depois me deito de novo.
— Fiquei lá parada por dois minutos inteiros sem dizer mais nada. Eu não tinha nada de bom para
dizer sobre aquele homem, então fiquei encarando todo mundo até minha mãe perceber minha intenção e
pedir para meu tio intervir.
Ryle inclina a cabeça.
— Está brincando? Você fez o oposto de uma homenagem no funeral de seu pai?
Assinto.
— Não estou orgulhosa do que fiz. Acho que não. Quero dizer, se dependesse de mim, ele teria sido
uma pessoa bem melhor, e eu falaria uma hora sobre ele.
Ryle se deita de novo.
— Uau! — exclama ele, balançando a cabeça. — Você meio que é minha heroína. Zombou de um
falecido.
— Que coisa de mau gosto.
— Bem, a verdade nua e crua dói.
Eu rio.
— Sua vez.
— Não vou conseguir superar isso — diz ele.
— Tenho certeza de que consegue chegar perto.
— Não sei, não.
Reviro os olhos.
— Consegue, sim. Não faça eu me sentir a pior pessoa aqui. Me conte seu pensamento mais recente,
um que a maioria das pessoas não diria em voz alta.
Ele põe as mãos atrás da cabeça e me encara nos olhos.
— Quero te comer.
Fico boquiaberta. Depois me recomponho.
Acho que estou sem palavras.
Ele me olha com inocência.
— Você pediu meu pensamento mais recente, então contei. Você é linda. Eu sou homem. Se você
gostasse de sexo casual, eu te levaria para meu quarto lá embaixo e te comeria.
Nem consigo olhar para ele. Seu comentário me faz sentir várias coisas ao mesmo tempo.

— Bem, eu não gosto de sexo casual.
— Imaginei — diz. — Sua vez.
Ele está tão tranquilo, nem parece que acabou de me deixar sem palavras.
— Preciso de um instante para me recompor depois dessa — explico, rindo.
Tento pensar em algo que vá deixá-lo um pouco chocado, mas não consigo esquecer o que ele
acabou de dizer. Em voz alta. Talvez seja porque é neurocirurgião; jamais imaginei alguém tão instruído
falando algo vulgar de forma aleatória.
Eu me recomponho... um pouco... e depois digo:
— Tá. Já que estamos nesse assunto... O primeiro cara com quem transei era um mendigo.
Ele se anima e se vira para mim.
— Ah, preciso saber mais sobre essa história.
Estico o braço e apoio a cabeça ali.
— Cresci no Maine. A gente morava em um bairro bem razoável, mas a rua de trás não estava em
condições tão boas. Nosso quintal era colado a uma casa condenada, adjacente a dois terrenos
abandonados. Fiz amizade com um cara chamado Atlas, que dormia no lugar. Ninguém sabia que ele
morava ali, só eu. Eu lhe levava comida, roupas, coisas. Até meu pai descobrir.
— E o que ele fez?
Contraio o maxilar. Não sei porque mencionei isso, já que me obrigo a não pensar nesse assunto
todos os dias.
— Bateu no cara. — Não quero mais ser nua e crua em relação ao assunto. — Sua vez.
Ele me observa em silêncio por um instante, como se soubesse que a história não acaba assim, mas
depois desvia o olhar.
— Sinto repulsa só de pensar em casar — confessa ele. — Estou com quase 30 anos e não tenho a
menor vontade de encontrar uma esposa. E principalmente não quero filhos. A única coisa que quero na
vida é sucesso. Muito. Mas, se eu admitir isso em voz alta para alguém, vai parecer arrogância.
— Sucesso profissional? Ou status social?
— As duas coisas. Qualquer pessoa pode ter filhos. Qualquer pessoa pode casar. Mas nem todo
mundo pode ser um neurocirurgião. Tenho muito orgulho disso. E não quero ser só um ótimo
neurocirurgião. Quero ser o melhor em minha área.
— Você tem razão. Fica parecendo arrogância mesmo.
Ele sorri.
— Minha mãe acha que estou desperdiçando minha vida no trabalho.
— Você é neurocirurgião, e sua mãe está desapontada? — Rio. — Meu Deus, que loucura! Será que
os pais jamais ficam satisfeitos com os filhos? Nunca somos bons o bastante?
Ele balança a cabeça.
— Meus filhos não seriam. Poucas pessoas são tão determinadas como eu, e isso só desencadearia
seu fracasso. Por isso jamais vou ter filhos.
— Na verdade, acho algo digno, Ryle. Muitas pessoas se recusam a admitir serem egoístas demais
para ter filhos.
Ele balança a cabeça.
— Ah, sou egoísta demais para ter filhos. E com certeza sou egoísta demais para me relacionar com
alguém.
— Então como evita isso? Simplesmente não sai com ninguém?
Ele me olha e sorri.
— Quando tenho tempo, algumas garotas satisfazem minhas necessidades. Não estou precisando de
nada nesse departamento... se é o que está perguntando. Mas nunca me senti atraído pelo amor. Sempre
foi mais um fardo que qualquer outra coisa.

Eu queria pensar assim. Minha vida seria tão mais fácil...
— Que inveja! Acredito que exista um homem perfeito para mim. E vivo me decepcionando, porque
ninguém corresponde a meus padrões. Parece que estou em uma busca infinita pelo Santo Graal.
— Devia testar meu método — aconselha ele.
— Qual?
— Sexo casual.
Ele ergue a sobrancelha, como se fosse um convite.
Ainda bem que está escuro, porque meu rosto parece em brasas.
— Eu nunca conseguiria transar com alguém sabendo que não daria em nada — argumento, em voz
alta, mas minhas palavras carecem de convicção.
Ele inspira fundo e devagar, depois se deita.
— Você não é esse tipo de garota, né? — pergunta ele, um pouco desapontado.
Também me sinto assim. Nem sei se o rejeitaria se ele tentasse alguma coisa, mas acho que acabei
de frustrar essa possibilidade.
— Se você não transaria com alguém que acabou de conhecer... — Seus olhos encontram os meus
de novo. — Até onde você iria?
Não sei responder. Eu me deito porque a maneira como me olha me faz reavaliar essa história de
sexo casual. Acho que não sou necessariamente contra. Apenas jamais recebi a proposta de alguém que
me faria considerar a opção.
Até agora. Acho. E será que ele está mesmo me propondo algo? Sempre fui péssima nesse lance de
flerte.
Ele estende o braço e segura a beirada de minha espreguiçadeira. Com um movimento rápido e
pouquíssimo esforço, Ryle a puxa para perto até encostar na sua.
Meu corpo inteiro enrijece. Ele está tão perto que sinto o calor de sua respiração cortando o ar frio.
Se eu olhasse para ele, seu rosto estaria a meros centímetros do meu. Eu me recuso a encará-lo, porque
ele provavelmente me beijaria, e não sei absolutamente nada sobre esse homem, além de algumas
verdades nuas e cruas. Porém, isso não me pesa nem um pouco na consciência quando ele põe a mão em
minha barriga.
— Até onde você iria, Lily?
Sua voz está indecente. Gostosa. Vai direto para a ponta de meus pés.
— Não sei — sussurro.
Seus dedos começam a se aproximar da costura de minha camisa. Passam a subir lentamente até
desnudar parte de minha barriga.
— Ah, meu Deus! — murmuro, sentindo o calor de sua mão subindo pelo estômago.
Apesar de saber que não devo, eu me viro para ele, e a expressão em seus olhos me cativa de vez.
Ele parece esperançoso, ávido e totalmente confiante. Afunda os dentes no lábio inferior enquanto sua
mão começa a explorar minha camisa de forma provocante. Sei que ele sente meu coração batendo
acelerado no peito. Droga, deve até escutá-lo.
— Fui longe demais? — pergunta ele.
Não sei de onde está vindo esse meu lado, mas balanço a cabeça e digo:
— De jeito algum.
Com um sorriso, seus dedos roçam a parte de baixo de meu sutiã, fluindo levemente por minha pele,
que está toda arrepiada.
Assim que fecho as pálpebras, um som penetrante rasga o ar. Sua mão enrijece quando nós dois
percebemos que é um celular. O dele.
Ele encosta a testa em meu ombro.
— Droga!

Franzo o cenho quando sua mão abandona minha pele. Ele remexe no bolso procurando o celular, se
levanta e se afasta alguns metros para atender a ligação.
— Dr. Kincaid — diz ele. Escuta atentamente, agarrando a nuca. — E Roberts? Não estou de
plantão. — Mais silêncio. — Ok, me dê dez minutos. Estou indo.
Ele encerra a ligação e guarda o celular no bolso. Ao se virar para mim, parece um pouco
desapontado. Aponta para a porta que leva à escada.
— Eu preciso...
Balanço a cabeça.
— Tudo bem.
Ele me analisa por um instante e, depois, ergue o dedo.
— Não se mexa — ordena Ryle, pegando o celular mais uma vez.
Ele se aproxima e o posiciona, como se estivesse prestes a tirar uma foto minha. Quase protesto,
mas nem sei por quê. Estou totalmente vestida. Mas por algum motivo não me sinto assim.
Ryle tira uma foto minha: deitada na espreguiçadeira, os braços relaxados acima da cabeça. Não
faço ideia do que pretende fazer com aquilo, mas gosto do fato de que a tirou. Gosto de saber que sentiu
vontade de lembrar como sou, por mais que imagine jamais voltar a me ver.
Observa a foto na tela por alguns segundos e sorri. Eu me sinto meio tentada a tirar uma foto sua
também, mas não sei se quero uma lembrança de alguém que nunca mais verei. Pensar nisso é um pouco
deprimente.
— Foi um prazer conhecê-la, Lily Bloom. Espero que você desafie as probabilidades e realmente
conquiste seu sonho.
Sorrio, triste e confusa em relação ao rapaz. Não sei se eu já havia conhecido alguém assim, com um
estilo de vida e uma faixa de imposto de renda totalmente diferentes dos meus. Provavelmente nunca mais
o farei. Porém, perceber que não somos tão diferentes assim é uma boa surpresa.
Equívoco confirmado.
Ele olha para os próprios pés por um instante, parado de um jeito bastante incerto. Como se
estivesse dividido entre a vontade de dizer mais alguma coisa e a necessidade de partir. Ele me olha uma
última vez... nesse momento, seu rosto não está impassível. Percebo o desapontamento na linha de sua
boca antes de ele se virar e seguir na direção oposta. Abre a porta, e escuto seus passos esvaecerem
enquanto ele desce a escada correndo. Estou sozinha no telhado de novo, mas, para minha surpresa, fico
um pouco triste com isso.

Capítulo Dois
Lucy — minha colega de apartamento que adora se ouvir cantando — corre pela sala, pegando chaves,
sapatos, óculos escuros. Estou sentada no sofá, abrindo caixas de sapato repletas de coisas antigas que eu
trouxe de casa. Peguei tudo essa semana, quando voltei para o funeral de meu pai.
— Vai trabalhar hoje? — pergunta Lucy.
— Não. Estou de licença até segunda... luto.
Ela para bruscamente.
— Até segunda? — zomba ela. — Sua vaca sortuda.
— Sim, Lucy. Foi a maior sorte meu pai morrer — ironizo, claro, mas me contraio ao perceber que
na verdade não pareci tão sarcástica assim.
— Você entendeu o que eu quis dizer — murmura ela, pegando a bolsa enquanto se equilibra em um
pé e coloca o sapato no outro. — Não vou dormir em casa hoje. Vou ficar com Alex.
Ela bate a porta ao sair.
Aparentemente, temos muito em comum; mas, além do mesmo manequim, da mesma idade e de
nomes com quatro letras, começados por L e terminados por Y, somos só duas meninas dividindo um
apartamento. Por mim tudo bem. Além da cantoria incessante, ela é bem tolerável. É limpa e passa muito
tempo fora. Duas das qualidades mais importantes para uma pessoa que mora com você.
Estou destampando uma das caixas quando meu celular toca. Estendo o braço até o canto e o pego.
Quando vejo que é minha mãe, afundo o rosto no sofá e finjo chorar na almofada.
Levo o celular até o ouvido.
— Alô?
São três segundos de silêncio, depois:
— Oi, Lily.
Suspiro e me sento de novo.
— Oi, mãe.
Estou realmente surpresa por ela falar comigo. Só se passou um dia desde o funeral. Eu esperava ter
notícias só daqui a 364 dias.
— Como você está? — pergunto.
Ela suspira dramaticamente.
— Estou bem — responde. — Sua tia e seu tio voltaram para Nebraska hoje de manhã. Vai ser
minha primeira noite sozinha desde que...
— Você vai ficar bem, mãe — garanto, tentando passar confiança.
Ela fica em silêncio por tempo demais, depois diz:
— Lily. Só queria que você soubesse... não precisa sentir vergonha por ontem.
Fico quieta. Eu não estava com vergonha. Nem um pouco.
— Todo mundo congela de vez em quando. Eu não devia tê-la pressionado daquele jeito, ainda mais
em um dia tão difícil. Devia ter pedido para seu tio fazer o discurso.
Fecho os olhos. Lá vai ela de novo. Encobrindo o que não quer ver. Assumindo uma culpa que nem
é sua. Ela se convenceu, claro, de que fiquei paralisada ontem, e por isso me recusei a falar. É óbvio.
Penso seriamente em confessar que não foi um erro. Não congelei. Simplesmente não tinha nada de bom a

dizer sobre o homem medíocre que ela escolheu para ser meu pai.
Mas em parte me sinto culpada pelo que fiz — especialmente porque minha mãe não devia ter
testemunhado aquilo —, então acabo aceitando sua deixa e entro no jogo.
— Obrigada, mãe. Me desculpe por ter paralisado.
— Tudo bem, Lily. Preciso ir, preciso ir à seguradora. Amanhã teremos a reunião sobre as apólices
de seu pai. Me ligue, ok?
— Ligo, sim — respondo. — Te amo, mãe.
Encerro a ligação e jogo o celular do outro lado do sofá. Abro a caixa de sapatos no colo e retiro o
conteúdo. Bem no topo, há um coraçãozinho oco de madeira. Passo os dedos por ele e me lembro da
noite em que o ganhei. Assim que começo a assimilar a lembrança, afasto o objeto. A nostalgia é uma
coisa curiosa.
Separo algumas cartas antigas e recortes de jornal. Embaixo de tudo, encontro o que eu sabia estar
nessas caixas. E, ao mesmo tempo, esperava que não estivesse.
Meus Diários de Ellen.
Passo as mãos por cima das capas. São três nessa caixa, mas, provavelmente, oito ou nove no total.
Não li nenhum desde a última vez que escrevi algo.
Quando era mais nova, eu me recusava a admitir a existência de meu diário: era muito clichê. Em
vez disso, me convenci de que eu fazia algo legal porque, tecnicamente, não era um diário. Toda vez, eu
escrevia para Ellen DeGeneres; comecei a assistir ao programa no dia em que estreou, em 2003, quando
ainda era uma criança. Eu o sintonizava todo dia, depois da escola, e tinha certeza de que Ellen me
amaria se me conhecesse. Escrevi cartas para ela regularmente até os 16 anos, mas na forma de diário.
Claro que eu sabia que a última coisa que Ellen DeGeneres provavelmente ia querer eram os textos de
uma garotinha qualquer. Felizmente, jamais enviei nenhum, mas gostava de escrever no diário como se
este fosse destinado a ela, então continuei fazendo isso até parar de vez.
Abro outra caixa de sapato e encontro mais cadernos. Eu os reviro até achar o de quando eu tinha 15
anos. E o abro, procurando o dia em que conheci Atlas. Antes disso não aconteceu muita coisa digna de
nota em minha vida, mas de alguma maneira consegui encher seis diários antes de nosso relacionamento.
Jurei que nunca mais leria essas coisas, mas com a morte de meu pai passei a pensar muito na
infância. Talvez, lendo esses diários, encontre forças para perdoá-lo. Apesar de ter medo de acabar
acumulando ainda mais ressentimento.
Eu me deito no sofá e começo.
Querida Ellen,
Antes de contar o que aconteceu hoje, tenho uma ideia maravilhosa para um novo quadro do
programa. Ele se chama Ellen em casa.
Acho que muitas pessoas gostariam de te ver fora do trabalho. Sempre fico imaginando como
você é em casa, quando está sozinha com Portia, sem nenhuma câmera por perto. Talvez os produtores
possam dar uma câmera a ela, e de vez em quando ela flagraria você de surpresa e te filmaria fazendo
coisas normais, tipo vendo TV, cozinhando, cuidando do jardim. Ela poderia filmar você por alguns
segundos sem que percebesse e depois gritar “Ellen em casa!” e te assustar. Acho justo, porque você
adora pegadinhas.
Tá, agora que contei isso (queria contar há um tempo e sempre esquecia), vou falar sobre meu dia
de ontem. Foi interessante. Provavelmente o dia mais interessante que já tive para contar, tirando o
dia em que Abigail Ivory deu um tapa no Sr. Carson por ter olhado para seu decote.
Lembra que um tempo atrás eu falei para você sobre a Sra. Burleson, que morava atrás da gente
e morreu na noite daquela grande nevasca? Meu pai disse que ela devia tantos impostos que a filha

não conseguiu ficar com a casa. Tenho certeza de que não se incomodou, porque a casa estava
começando a cair aos pedaços. Provavelmente teria sido mais um fardo que outra coisa.
A casa está vazia desde a morte da Sra. Burleson, e isso já tem uns dois anos. Sei que está vazia
porque a janela de meu quarto tem vista para o quintal, e não me lembro de ver ninguém entrar ou
sair dali.
Até ontem à noite.
Eu estava na cama, embaralhando cartas. Sei que parece estranho, mas é algo que costumo fazer.
Nem sei jogar baralho. Mas, quando meus pais brigam, embaralhar cartas é algo que simplesmente
me acalma às vezes, prende minha atenção.
Enfim, estava escuro lá fora, então logo notei a luz. Não era muito forte, mas vinha da casa
antiga. Parecia mais luz de velas que outra coisa, então fui até a varanda dos fundos pegar os
binóculos de papai. Tentei ver o que estava acontecendo, mas não consegui identificar nada. Estava
escuro demais. Então, depois de um tempo, a luz se apagou.
Hoje de manhã, enquanto me arrumava para o colégio, vi alguma coisa se movendo atrás da
casa. Eu me agachei na janela do quarto e notei uma pessoa saindo escondida pela porta dos fundos.
Era um rapaz e tinha uma mochila. Olhou ao redor, como se quisesse ter certeza de que ninguém
estava espiando, e depois passou entre nossa casa e a do vizinho, então seguiu e parou no ponto de
ônibus.
Nunca vi esse homem. Foi a primeira vez que andou em meu ônibus. Ele se sentou nos fundos, e
eu, no meio, então não falei com ele. Mas, quando desceu do ônibus no ponto do colégio, vi ele entrar
ali, então deve ser onde estuda.
Não faço ideia de por que ele estava dormindo naquela casa. É provável que lá não tenha
eletricidade nem água. Achei que talvez ele tivesse perdido uma aposta com alguém, mas hoje ele
desceu do ônibus no mesmo ponto que eu. Seguiu pela rua como se fosse para outro lugar, mas fui
correndo para meu quarto e fiquei olhando da janela. E, alguns minutos depois, eu o vi entrar
escondido pelos fundos na casa vazia.
Não sei se eu devia dizer alguma coisa para minha mãe. Odeio ser enxerida, porque isso não é de
minha conta. Mas, se aquele menino não tem para onde ir, acho que minha mãe saberia como ajudar
porque ela trabalha no colégio.
Não sei. Talvez eu espere alguns dias antes de dizer alguma coisa, para ver se ele volta para
casa. Talvez só precise de um tempinho longe dos pais. Algo que eu mesma gostaria, às vezes.
Ok. Depois eu conto o que acontecer amanhã.
Lily
Querida Ellen,
Quando vejo seu programa, avanço todo trecho em que você dança. Eu costumava ver o começo
quando você dançava no meio da plateia, mas agora acho um pouco chato e prefiro só escutar você
falar. Espero que não fique brava.
Tá, descobri quem é o rapaz, e, sim, ele continua morando lá. Já se passaram dois dias, e eu
ainda não contei pra ninguém.
O nome dele é Atlas Corrigan, e está no último ano, mas é tudo o que sei. Perguntei a Katie quem
era ele quando ela se sentou a meu lado no ônibus. Ela revirou os olhos e me contou o nome. Mas
depois disse: “Eu não sei mais nada sobre ele, mas ele fede”. Ela enrugou o nariz como se estivesse
enojada. Eu queria gritar com ela e dizer que não é culpa dele, que o menino não tem água em casa.
Mas, em vez disso, só olhei para ele. Talvez eu tenha olhado demais, porque ele percebeu que eu o
estava encarando.

Quando cheguei em casa, fui cuidar da horta no quintal. Meus rabanetes estavam prontos para
serem colhidos, então fiquei lá fora fazendo isso. Só sobrou isso na horta. Está começando a esfriar,
então não tem muita coisa que eu possa plantar. Eu provavelmente poderia ter esperado mais alguns
dias antes de tirá-los, mas também fui lá para fora porque estava sendo enxerida.
Enquanto os puxava, percebi que alguns estavam faltando. Parecia que tinham acabado de
desenterrá-los. Sei que não fui eu que os tirei, e meus pais nunca mexem na horta.
Então pensei em Atlas, e muito provavelmente tinha sido ele. Eu não tinha me dado conta de que,
se ele não tem acesso à água, também não devia ter comida.
Entrei em casa e fiz dois sanduíches. Peguei dois refrigerantes na geladeira e um pacote de
batatas fritas. Coloquei tudo numa bolsa térmica, fui até a casa abandonada e deixei a bolsa na
varanda dos fundos, perto da porta. Eu não sabia se ele tinha me visto, então bati bem forte e depois
voltei correndo para minha casa, seguindo direto para meu quarto. Quando cheguei na janela para
ver se ele ia sair, a bolsa já tinha sumido.
Então descobri que ele andava me observando. Agora estou um pouco nervosa por ele saber que
eu sei de sua presença. Não sei o que dizer se ele tentar falar comigo amanhã.
Lily
Querida Ellen,
Hoje vi sua entrevista com o candidato à presidência Barack Obama. Isso não te deixa nervosa?
Entrevistar pessoas que podem governar o país algum dia? Não entendo muito de política, mas acho
que eu não conseguiria ser engraçada sob tanta pressão.
Cara. Muita coisa aconteceu com nós duas. Você acabou de entrevistar alguém que pode vir a se
tornar nosso próximo presidente, e eu estou levando comida para um mendigo.
De manhã, quando cheguei ao ponto de ônibus, Atlas já estava lá. No início éramos só nós dois,
e, não vou mentir, foi constrangedor. Vi que o ônibus virava a esquina, e torci para que ele viesse mais
rápido. Assim que o ônibus parou, Atlas se aproximou de mim e, sem erguer o olhar, disse:
“Obrigado”.
As portas do ônibus se abriram e ele me deixou entrar primeiro. Eu não disse “de nada” porque
fiquei meio que chocada com minha reação. A voz me arrepiou, Ellen.
A voz de algum garoto já causou isso em você?
Ah, espere. Desculpe. A voz de alguma garota já causou isso em você?
Ele não se sentou perto de mim nem nada do tipo no caminho até o colégio, mas na volta ele foi o
último a subir no ônibus. Não tinha nenhum lugar vazio, mas, pela maneira como ele olhou para todo
mundo no ônibus, eu percebi que não estava procurando um lugar para se sentar. Estava me
procurando.
Quando seus olhos encontraram os meus, olhei depressa para meu colo. Odeio não ser muito
confiante com garotos. Talvez seja algo que eu supere quando finalmente completar 16 anos.
Ele se sentou a meu lado e colocou a mochila entre as pernas. Então entendi o que Katie estava
falando. Ele fedia um pouco, mas não o julguei por causa disso.
Ele não disse nada a princípio, mas ficou remexendo em um buraco na calça jeans. Não era um
buraco que deixava a calça mais estilosa. Dava para perceber que era um buraco de verdade, porque
a calça era velha. Até parecia um pouco pequena para ele, porque seus tornozelos estavam
aparecendo. Mas ele era magro o suficiente para que ficasse bem nas outras partes.
— Você contou para alguém? — perguntou.
Olhei para ele quando falou, e ele estava me encarando, parecendo preocupado. Foi a primeira
vez que consegui olhar direito para ele. Seu cabelo era castanho-escuro, mas achei que, se ele o

lavasse, talvez não ficasse tão escuro quanto estava naquele momento. Seus olhos eram claros,
diferentemente do restante de seu corpo. Olhos azuis de verdade, parecido com os de um husky
siberiano. Eu não devia comparar seus olhos aos de um cachorro, mas foi a primeira coisa que me
passou pela cabeça quando os vi.
Balancei a cabeça e olhei pela janela. Achei que ele ia se levantar e encontrar outro lugar para
se sentar, afinal eu disse que não tinha contado a ninguém, mas ele não fez isso. O ônibus parou
algumas vezes, e o fato de que ele ainda estava eli me deu um pouco de coragem, então falei, em um
sussurro:
— Por que não mora em casa com seus pais?
Ele me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se podia confiar em mim
ou não. Depois respondeu:
— Porque eles não querem.
Foi então que ele se levantou. Achei que eu tivesse deixado ele irritado, mas então percebi que
tinha se levantado porque chegamos ao ponto. Peguei minhas coisas e desci do ônibus logo atrás. Ele
nem tentou disfarçar para onde estava indo, como costuma fazer. Normalmente, ele segue pela rua e
dá a volta no quarteirão para que eu não o veja passando pelo quintal. Mas hoje ele foi andando até
meu quintal comigo.
Quando chegamos aonde eu normalmente me viraria para entrar em casa e ele continuaria
andando, nós dois paramos. Ele chutou a terra com o pé e olhou para minha casa atrás de mim.
— Que horas seus pais chegam?
— Umas 17h — respondi.
Eram 15h45.
Ele assentiu e parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas não fez isso. Simplesmente balançou a
cabeça mais uma vez e começou a seguir na direção daquela casa sem comida, eletricidade e água.
Agora, Ellen, eu sei que o que fiz em seguida foi uma burrice, então nem precisa me dizer isso.
Chamei ele e, depois que parou e se virou, falei:
— Se você se apressar, pode tomar um banho antes que eles cheguem.
Meu coração estava muito acelerado, porque eu sabia que estaria muito encrencada se meus pais
chegassem em casa e encontrassem um mendigo no chuveiro. Provavelmente me matariam. Mas não
consegui vê-lo ir embora para casa sem oferecer nada.
Ele olhou novamente para o chão, e senti seu constrangimento como uma pontada na barriga. Ele
nem balançou a cabeça. Simplesmente me acompanhou até em casa e não disse nada.
Enquanto ele tomava uma ducha, eu estava em pânico. Fiquei olhando pela janela em busca do
carro de meu pai ou de minha mãe, apesar de saber que demoraria uma hora para eles chegarem.
Fiquei nervosa achando que um dos vizinhos poderia ter visto ele entrar aqui em casa, mas não me
conheciam o suficiente para achar que era anormal receber uma visita.
Eu tinha dado roupas limpas para Atlas, e sabia que não só ele precisava estar fora de nossa casa
quando meus pais chegassem, mas precisava estar bem longe. Tenho certeza de que meu pai
reconheceria as próprias roupas em um adolescente qualquer de nosso bairro.
Enquanto olhava pela janela e conferia o relógio, comecei a encher uma mochila velha com
várias coisas. Comida que não precisava de refrigeração, algumas camisetas de meu pai, uma calça
jeans que provavelmente era dois tamanhos maior que o dele e um par de meias.
Estava fechando a mochila quando ele apareceu do corredor.
Eu tinha razão. Mesmo molhado, dava para perceber que seu cabelo era mais claro do que
parecia antes. Isso deixou seus olhos ainda mais azuis.
Ele deve ter feito a barba enquanto estava lá dentro, porque parecia mais novo que quando
entrou no banheiro. Engoli em seco e olhei para a mochila, chocada ao ver como ele estava diferente.

Fiquei com medo de que meus pensamentos estivessem estampados no rosto.
Olhei pela janela mais uma vez e lhe entreguei a mochila.
— Talvez seja melhor você sair pela porta dos fundos para ninguém te ver.
Ele pegou a mochila e me encarou por um minuto.
— Qual seu nome? — perguntou, colocando a mochila no ombro.
— Lily.
Ele sorriu. Foi a primeira vez que sorriu para mim, e tive um pensamento péssimo e superficial.
Eu me perguntei como alguém com um sorriso tão lindo poderia ter pais tão ruins. Fiquei com raiva
de mim por ter pensado aquilo, porque é claro que os pais deveriam amar os filhos fossem eles bonitos
ou feios, magros ou gordos, inteligentes ou burros. Mas às vezes não dá para controlar a própria
mente. É preciso treiná-la para nunca mais pensar a mesma coisa.
Ele estendeu a mão e disse:
— Meu nome é Atlas.
— Eu sei — respondi, sem apertar sua mão.
Não sei por que não fiz isso. Não foi porque eu estava com medo de encostar nele. Quer dizer, eu
estava com medo de encostar nele. Mas não porque eu me achava melhor que ele. Ele me deixava
muito nervosa, só isso.
Ele abaixou a mão, balançou a cabeça e depois disse:
— Acho melhor eu ir, então.
Dei um passo para o lado para que ele pudesse passar. Atlas apontou para a cozinha,
perguntando silenciosamente se a porta dos fundos ficava naquela direção. Assenti e o acompanhei
pelo corredor. Quando ele chegou à porta dos fundos, eu o vi parar por um segundo ao ver meu
quarto.
De repente, fiquei com vergonha por ele estar vendo meu quarto. Ninguém nunca vê meu quarto,
então nunca achei que precisava deixá-lo com uma aparência mais madura. A coberta e a cortina,
ambas cor-de-rosa, são as mesmas desde que eu tinha 12 anos. Pela primeira vez na vida, tive vontade
de arrancar meu pôster de Adam Brody.
Atlas não pareceu se importar com a decoração do quarto. Ele olhou fixo para minha janela — a
que dá para o quintal — e depois me olhou de novo. Antes de sair de minha casa, disse:
— Obrigado por não ser detrativa, Lily.
E depois foi embora.
Claro que eu já ouvi essa palavra, mas foi estranho ouvir um adolescente dizer isso. O mais
estranho é como tudo em Atlas me parece muito contraditório. Como um rapaz que é nitidamente
modesto, educado e usa palavras como detrativa não tem onde morar? Como um adolescente vira um
mendigo?
Preciso descobrir, Ellen.
Vou descobrir o que aconteceu com ele. Espere só pra ver.
Lily
•

•

•

Estou prestes a ler outra carta quando meu celular toca. Engatinho no sofá para pegá-lo, e não fico nem
um pouco surpresa ao ver o número de minha mãe. Sozinha depois da morte de meu pai, provavelmente
ela vai me ligar o dobro de vezes que ligava antes.
— Alô?

— O que acha de eu me mudar para Boston? — pergunta ela, bruscamente.
Agarro a almofada ao lado e enfio o rosto ali, abafando meu grito.
— Hum. Nossa! — exclamo. — Sério?
Ela fica em silêncio, depois acrescenta:
— Acabei de pensar nisso. Amanhã a gente conversa. Estou quase atrasada para a reunião.
— Tá. Tchau.
E, como num passe de mágica, sinto vontade de sair de Massachusetts. Ela não pode se mudar para
cá. Não conhece ninguém aqui. Iria pedir atenção todos os dias. Amo minha mãe, não me entendam mal,
mas eu me mudei para Boston em busca de independência, e eu me sentiria menos livre com ela na
cidade.
Meu pai foi diagnosticado com câncer há três anos, quando eu ainda cursava a faculdade. Se Ryle
Kincaid estivesse ali, eu lhe contaria a verdade nua e crua de que me senti um pouco aliviada quando
Andrew Bloom ficou doente demais para machucar alguém fisicamente. Isso mudou de vez a dinâmica do
relacionamento de meus pais, e não senti mais a obrigação de ficar em Plethora para garantir o bem-estar
de mamãe.
Agora que papai faleceu e que não preciso mais me preocupar com minha mãe, eu ansiava por abrir
as asas e voar, por assim dizer.
E agora ela vai se mudar para Boston?
Sinto como se tivessem cortado minhas asas.
Cadê minha cadeira de polímero resistente à maresia quando preciso de uma?!
Estou realmente estressada e não faço ideia do que vou fazer caso ela se mude. Não tenho jardim
nem quintal, nem terraço, nem ervas daninhas.
Preciso achar outra válvula de escape.
Decido arrumar as coisas em casa. Guardo no armário do quarto todas as velhas caixas cheias de
diários e bilhetes. Depois, organizo meu armário inteiro. Minhas joias, meus sapatos, minhas roupas...
Ela não pode se mudar para Boston.

Capítulo Três
Seis meses depois
— Ah.
É tudo o que ela diz.
Minha mãe se vira e observa o prédio, passando o dedo no peitoril da janela a seu lado. Ela limpa a
camada de pó entre os dedos.
— É...
— Precisa de muito trabalho, eu sei — interrompo. Aponto para as vitrines logo atrás. — Mas olhe
só a fachada. Tem potencial.
Ela observa as vitrines de cima a baixo, balançando a cabeça. Às vezes faz um barulho no fundo da
garganta, quando ela concorda com um “hum”, mas os lábios permanecem fechados. O que significa que,
na verdade, ela não concorda. E faz esse barulho. Duas vezes.
Abaixo os braços, desistindo.
— Acha que foi idiotice minha?
Ela balança de leve a cabeça.
— Depende do que acontecer, Lily — responde ela. O local costumava ser um restaurante e ainda
está cheio de mesas e cadeiras velhas. Minha mãe vai até uma mesa próxima, puxa uma das cadeiras e
senta. — Se as coisas derem certo e sua floricultura for um sucesso, as pessoas vão dizer que foi uma
decisão de negócios corajosa, ousada e inteligente. Mas, se der errado e você perder toda a herança...
— As pessoas vão dizer que foi uma decisão de negócios idiota.
Ela dá de ombros.
— É assim que as coisas são. Você se formou em administração, então sabe disso. — Ela olha
lentamente ao redor, como se estivesse imaginando como vai ficar daqui a um mês. — Mas faça mesmo
algo corajoso e ousado, Lily.
Sorrio. Isso eu aceito.
— Não acredito que comprei sem consultar você — comento, sentando à mesa.
— Você é adulta. É seu direito — argumenta ela, mas noto um quê de desapontamento.
Acho que está se sentindo ainda mais sozinha agora que preciso cada vez menos dela. Já se
passaram seis meses desde a morte de meu pai, e apesar de ele não ter sido uma boa companhia, minha
mãe deve achar estranho ficar sozinha. Ela arranjou um emprego em uma escola de ensino fundamental
local, então acabou se mudando. Ela escolheu uma cidade pequena nos arredores de Boston. Comprou
uma linda casa de dois quartos, com um quintal enorme, em uma rua sem saída. Sonho em construir uma
horta ali, mas precisaria de cuidados diários. Meu limite é uma visita semanal. Às vezes duas.
— O que vai fazer com todo esse lixo? — pergunta ela.
Tem razão. Há muito lixo. Vou demorar uma eternidade para esvaziar o lugar.
— Não faço ideia. Acho que tenho trabalho de sobra antes de ao menos pensar em decoração.
— Quando é seu último dia na empresa de marketing?
Sorrio.

— Foi ontem.
Ela suspira e, em seguida, balança a cabeça.
— Ah, Lily. Espero mesmo que dê certo.
Nós duas começamos a nos levantar, e a porta se abre. Tem algumas prateleiras na frente da porta,
então inclino a cabeça para ver uma mulher entrar. Seus olhos dão uma rápida examinada no local até me
encontrarem.
— Oi — cumprimenta ela, acenando.
Ela é bonita. Está bem vestida, mas de calça capri branca. No meio de todo esse pó, é um desastre
anunciado.
— Posso ajudá-la?
Ela enfia a bolsa debaixo do braço e se aproxima de mim, estendendo a mão.
— Meu nome é Allysa — apresenta-se.
Aperto sua mão.
— Lily.
Ela aponta o polegar por cima do ombro.
— Eu vi a placa de “estamos contratando” ali na frente.
Olho por cima de seu ombro e ergo a sobrancelha.
— É?
Não coloquei nenhuma placa.
Ela confirma com a cabeça e dá de ombros.
— Mas parece velha — comenta ela. — Deve estar há um tempo. Eu estava caminhando por aqui e
vi a placa. Fiquei curiosa, só isso.
Gosto dela quase que de imediato. A voz é agradável, e o sorriso parece genuíno.
A mão de minha mãe toca meu ombro. Ela se inclina e me beija a bochecha.
— Preciso ir — diz ela. — O open house é hoje à noite.
Eu me despeço e a observo partir, depois volto a atenção para Allysa.
— Ainda não estou contratando — aviso. Gesticulo, mostrando o local. — Vou abrir uma
floricultura, mas vai demorar uns dois meses, no mínimo.
Eu não deveria julgá-la sem conhecer, mas ela não tem jeito de quem vai ficar satisfeita com um
salário mínimo. Sua bolsa deve custar mais que minha loja.
Seus olhos brilham.
— Sério? Eu amo flores! — Ela gira, fazendo um círculo. — Este lugar tem muito potencial. De que
cor você vai pintar?
Cruzo os braços e agarro meu cotovelo. Balançando nos calcanhares, respondo:
— Não sei ainda. Faz só uma hora que peguei as chaves, então ainda não fiz a planta do projeto.
— Lily, não é?
Assinto.
— Não vou fingir que sou formada em design, mas é o que eu mais gosto no mundo. Se precisar de
ajuda, eu faria de graça.
Inclino a cabeça.
— Você trabalharia de graça?
Ela confirma com a cabeça.
— Eu não estou mesmo precisando de um emprego, só vi a placa e pensei Ah, vou ver no que dá.
Fico entediada às vezes. Adoraria ajudar no que você precisar. Limpar, decorar, escolher as cores das
tintas. Sou a louca do Pinterest. — Alguma coisa atrás de mim chama sua atenção, e ela aponta. — Posso
transformar aquela porta quebrada em algo incrível. Tudo isso, na verdade. Dá para aproveitar quase
tudo, sabia?

Olho ao redor, sabendo muito bem que não vou conseguir me virar sozinha. Provavelmente nem
consigo erguer metade dessas coisas sem ajuda. E vou terminar contratando alguém mesmo.
— Não vou te deixar trabalhar de graça. Mas posso pagar 10 dólares a hora se estiver falando sério.
Ela começa a bater palmas e, se não estivesse de salto, acho que teria dado um pulinho.
— Quando posso começar?
Olho para a calça capri branca.
— Pode ser amanhã? É melhor vir com uma roupa descartável.
Ela gesticula, fazendo pouco caso, e põe a bolsa Hermès sobre a mesa empoeirada a seu lado.
— Que nada — diz ela. — Meu marido está assistindo ao jogo do Bruins em um bar na rua. Se não
se incomodar, posso ficar aqui e começar agora mesmo.
•

•

•

Duas horas depois, tenho certeza de que conheci minha nova melhor amiga. E ela é mesmo a louca do
Pinterest.
Escrevemos “Guardar” e “Jogar Fora” em post-its e os colamos por toda loja. Ela também acredita
em upcycling, então pensamos em ideias para pelo menos 75% das coisas abandonadas ali. Quanto ao
resto, ela diz que o marido pode jogar fora quando tiver um tempinho. Depois de decidir o que vamos
fazer com tudo, pego um caderno e uma caneta e nos sentamos a uma das mesas para anotar ideias de
design.
— Tá — começa ela, se recostando na cadeira. Quero rir porque sua calça capri está toda
empoeirada, mas ela parece não se importar. — Você tem algum objetivo para este lugar? — pergunta,
olhando ao redor.
— Eu tenho um objetivo — digo. — Ter sucesso.
Ela ri.
— Não tenho dúvida de que você vai conseguir. Mas precisa de uma visão.
Penso no que minha mãe disse: “Faça mesmo algo corajoso e ousado, Lily”. Sorrio e me empertigo
na cadeira.
— Corajoso e ousado — elaboro. — Quero que este lugar seja diferente. Quero correr riscos.
Ela semicerra os olhos enquanto morde a ponta da caneta.
— Mas você só vai vender flores — argumenta. — Como pode ser corajosa e ousada com flores?
Olho ao redor e tento visualizar o que estou pensando. Nem eu sei direito o que é, mas estou
inquieta, como se estivesse prestes a ter uma grande ideia.
— De quais palavras você lembra quando pensa em flores? — pergunto.
Ela dá de ombros.
— Não sei. Acho que são meigas, talvez? São vivas, então eu penso em vida. E talvez em cor-derosa. E na primavera.
— Meigas, vida, cor-de-rosa, primavera — repito. E depois acrescento: — Alyssa, você é genial!
— Eu me levanto e começo a andar de um lado para o outro. — Vamos pegar tudo que as pessoas amam
nas flores e fazer o oposto!
Ela faz uma careta, indicando que não está me entendendo.
— Tá — digo. — E se, em vez de mostrarmos o lado meigo das flores, a gente mostrasse o lado
vilão? Em vez de tons cor-de-rosa, usássemos cores mais escuras, como roxo-escuro ou até mesmo
preto? E, em vez de somente primavera e vida, também celebrássemos o inverno e a morte?
Alyssa arregala os olhos.

— Mas... e se alguém quiser flores cor-de-rosa?
— Bem, aí claro que vamos fornecer o que a pessoa quiser. Mas também vamos oferecer algo que
ela não sabe que quer.
Ela coça a bochecha.
— Então está pensando em flores pretas?
Alyssa parece preocupada, e não a culpo. Está vendo apenas o lado mais sombrio da ideia. Eu me
sento à mesa novamente, e tento fazer com que ela entenda.
— Certa vez, alguém me disse que não existem pessoas ruins. Todos nós somos humanos e, às vezes,
fazemos coisas ruins. Isso nunca me saiu da cabeça porque é mesmo verdade. Todos nós temos um pouco
de bondade e de maldade. Em vez de pintar as paredes com uma cor meiga e péssima, vamos pintar de
roxo-escuro com detalhes pretos. E, em vez de expor somente flores nos usuais tons pastel, dentro de
tediosos vasos de cristal, para as pessoas pensarem na vida, vamos adotar um jeito mais provocador.
Corajoso e ousado. Vamos expor flores mais escuras, envoltas em couro ou correntes prateadas. E, em
vez de vasos de cristais, vamos colocar as flores em ônix preto ou... não sei... vasos de veludo roxo com
tachas prateadas. São muitas possibilidades. — Eu me levanto de novo. — Tem uma floricultura em toda
esquina para quem ama flores. Mas que floricultura foi feita para todas as pessoas que odeiam flores?
Allysa balança a cabeça.
— Nenhuma — sussurra ela.
— Exatamente. Nenhuma.
Nós ficamos nos encarando por um instante, e depois não consigo mais me segurar. Estou
explodindo de entusiasmo e começo a rir feito uma criança empolgada. Allysa ri também, depois levanta
da cadeira e me abraça.
— Lily, é tão perturbador, é brilhante!
— Eu sei! — Me sinto renovada. — Preciso de uma mesa de trabalho para me sentar e elaborar um
projeto! Mas meu futuro escritório está cheio de engradados velhos para vegetais!
Ela vai até os fundos da loja.
— Bem, vamos tirá-los daqui e te comprar uma mesa!
Entramos no escritório e começamos a separar os engradados, um a um, colocando-os no cômodo
dos fundos. Subo na cadeira para deixar as pilhas mais altas, assim vamos ter mais espaço para nos
movimentar.
— Isto é perfeito para as vitrines que estou imaginando.
Ela me entrega mais dois engradados e se afasta, e, quando estou na ponta dos pés, colocando-os
bem no topo, a pilha começa a desmoronar. Tento encontrar algo em que me segurar para me equilibrar,
mas os engradados me derrubam da cadeira. Assim que caio no chão, sinto meu pé virar para o lado
errado. Logo depois, sinto a dor subindo rapidamente pela perna e descendo até os dedos do pé.
Allysa entra depressa e precisa tirar dois engradados de cima de mim.
— Lily! — chama ela. — Meu Deus, você está bem?
Eu me ergo, sentando, mas nem tento me apoiar no tornozelo. Balanço a cabeça.
— Meu tornozelo.
Ela tira imediatamente meu sapato e puxa o celular do bolso. Começa a discar um número e depois
olha para mim.
— Sei que é uma pergunta idiota, mas por acaso você tem uma geladeira e gelo?
Balanço a cabeça.
— Foi o que imaginei — diz ela.
Ela põe o celular no viva voz e o deixa no chão enquanto começa a enrolar minha calça. Eu me
contraio, não tanto pela dor. É que não acredito ter feito uma idiotice tão grande. Se eu quebrei o
tornozelo, estou ferrada. Acabei de gastar toda a herança em uma loja que só vou poder renovar daqui a

meses.
— Ooooi, Issa — cantarola uma voz no celular de Allysa. — Onde você está? O jogo acabou.
Allysa pega o celular e o aproxima da boca.
— Estou no trabalho. Olhe, preciso...
O cara a interrompe e pergunta:
— No trabalho? Querida, você nem tem emprego.
Ela balança a cabeça e responde:
— Marshall, escute. É uma emergência. Acho que minha chefe quebrou o tornozelo. Preciso que
traga um pouco de gelo para...
Ele a interrompe, rindo:
— Sua chefe? Querida, você nem tem emprego — repete ele.
Allysa revira os olhos.
— Marshall, você está bêbado?
— É dia do kigurumi — responde ele, embolando as palavras. — Você sabia disso quando nos
deixou aqui, Issa. Cerveja grátis até...
Ela resmunga.
— Passe o celular para meu irmão.
— Tá, tá — murmura Marshall.
Escuto um barulho abafado vindo do aparelho, e depois:
— Oi?
Allysa fala rapidamente nosso endereço.
— Venha para cá agora, por favor. E traga um saco de gelo.
— Sim, senhora — diz ele.
O irmão também parece um pouco bêbado. Escuto risadas, e, depois, um deles diz: “Ela está de mau
humor”. E a ligação é encerrada.
Allysa guarda o telefone no bolso.
— Vou esperar lá fora, eles estão aqui na rua. Você vai ficar bem?
Faço que sim e estendo o braço para a cadeira.
— Talvez eu devesse tentar andar.
Allysa empurra meus ombros até eu encostar de novo na parede.
— Não se mexa. Espere eles chegarem, tá?
Não faço ideia do que dois bêbados vão fazer por mim, mas concordo com a cabeça. Minha nova
funcionária parece mais minha chefe... e está meio que me assustando.
Fico esperando nos fundos por cerca de dez minutos quando finalmente escuto a porta da loja se
abrir.
— Que diabo é isso aqui? — pergunta uma voz masculina. — Por que está sozinha neste lugar
esquisito?
Escuto Allysa responder:
— Ela está lá trás.
Depois entra, seguido de um homem usando um kigurumi. Ele é alto, mais para magro, e tem uma
beleza infantil, com olhos arregalados e sinceros, e cabelo escuro, bagunçado, do tipo que já passou da
hora de cortar há muito tempo. Está segurando um saco de gelo.
Já falei que está de kigurumi? Aqueles macacões de pelúcia?
Estou falando de um homem de verdade, adulto, usando um macacão pijama do Bob Esponja.
— Este é seu marido? — pergunto, erguendo a sobrancelha.
Allysa revira os olhos.
— Infelizmente — responde ela, olhando para ele. Outro homem (também de macacão) entra, mas

estou prestando atenção em Allysa, que me explica por que ambos usam pijamas em uma tarde de quartafeira. — Há um bar aqui na rua que dá cerveja grátis para todo mundo vestido em um kigurumi durante os
jogos do Bruins. — Ela se aproxima de mim e gesticula para que os dois a acompanhem. — Lily caiu da
cadeira e machucou o tornozelo — avisa ao outro homem.
Ele passa por Marshall, e a primeira coisa que percebo são seus braços.
Caramba. Conheço esses braços.
São os braços de um neurocirurgião.
Allysa é sua irmã? A irmã dona do último andar, com o marido que trabalha de pijama e ganha mais
de sete dígitos por ano?
Assim que meus olhos encontram os de Ryle, seu rosto é tomado por um sorriso. Não o vejo desde...
Meu Deus, há quanto tempo foi aquilo? Seis meses? Não posso dizer que não pensei no cara nos últimos
seis meses, porque pensei várias vezes. Mas jamais achei que o veria novamente.
— Ryle, esta é Lily. Lily, este é meu irmão, Ryle — apresenta ela, gesticulando. — E este é meu
marido, Marshall.
Ryle se aproxima de mim e se ajoelha.
— Lily — diz ele, olhando para mim e sorrindo. — É um prazer conhecê-la.
Está na cara que se lembra de mim, dá para perceber pelo sorriso metido. Mas, assim como eu, está
fingindo não me conhecer. Não sei se estou a fim de explicar como já nos conhecemos.
Ryle toca meu tornozelo e o analisa.
— Consegue mexer?
Tento, mas uma dor aguda sobe rapidamente pela perna. Inspiro, entre dentes, e balanço a cabeça.
— Ainda não. Está doendo.
Ryle gesticula para Marshall.
— Encontre alguma coisa para colocar o gelo.
Allysa sai com Marshall. Depois que os dois vão embora, Ryle olha para mim e sorri.
— Não vou cobrar nada por isso, mas só porque estou um pouco bêbado — avisa ele, dando uma
piscadela.
Inclino a cabeça.
— Quando te conheci, você estava chapado. Agora está bêbado. Não sei se será um neurocirurgião
muito competente.
Ele ri.
— É o que parece — comenta. — Mas garanto que raramente fico chapado, e hoje é meu primeiro
dia de folga em mais de um mês, então precisava mesmo de uma cerveja. Ou cinco.
Marshall volta com gelo enrolado em um pano velho. Ele o entrega para Ryle, que o encosta em meu
tornozelo.
— Vou precisar daquele kit de primeiros socorros de seu porta-malas — diz Ryle para Allysa.
Ela assente e agarra a mão de Marshall, levando-o de novo para fora do cômodo.
Ryle coloca a palma na sola de meu pé.
— Pressione minha mão — pede ele.
Faço força para baixo com o tornozelo. Dói, mas consigo mover sua mão.
— Está quebrado?
Ele mexe meu pé de um lado para outro e depois diz:
— Acho que não. Temos de esperar alguns minutos para saber se conseguirá se apoiar nele.
Assinto e o observo se acomodar a minha frente. Ele se senta com as pernas cruzadas e puxa meu pé
para o colo. Dá uma olhada no cômodo e depois volta a atenção para mim.
— Então, que lugar é esse aqui?
Abro um sorriso exagerado.

— Lily Bloom. Vai ser uma floricultura daqui a uns dois meses.
Juro que seu rosto inteiro se iluminou com orgulho.
— Não acredito! — exclama. — Você fez mesmo isso? Vai realmente abrir o próprio negócio?
Confirmo com a cabeça.
— Vou. Achei que seria melhor tentar enquanto ainda sou jovem o bastante para me recuperar do
fracasso.
Uma de suas mãos está segurando o gelo em meu tornozelo, mas a outra envolve meu pé descalço.
Ele está roçando o dedão para a frente e para trás, como se tocar em mim não fosse nada de mais. Mas
percebo bem mais sua mão em meu pé que a dor no tornozelo.
— Estou ridículo, não é? — pergunta ele, olhando para o kigurumi vermelho.
Dou de ombros.
— Pelo menos o seu não é de nenhum personagem. Parece uma opção mais madura que Bob
Esponja.
Ele ri, e seu sorriso desaparece quando apoia a cabeça na porta ao lado. Ele me encara, feliz.
— Você é ainda mais bonita de dia.
É nesses momentos que odeio ter cabelo ruivo e pele clara. A vergonha aparece não só nas
bochechas, mas em meu rosto inteiro, meus braços e meu pescoço ficam corados.
Encosto a cabeça na parede e fico o encarando da mesma maneira como ele me encara.
— Quer ouvir uma verdade nua e crua?
Ele assente.
— Desde aquela noite, sinto vontade de voltar a seu telhado. Mas fiquei com muito medo de te
encontrar lá. Você meio que me deixa nervosa.
Seus dedos param de acariciar meu pé.
— Minha vez?
Confirmo com a cabeça.
Ele semicerra os olhos enquanto sua mão toca a sola de meu pé. Ele desce lentamente dos dedos do
pé até meu calcanhar.
— Ainda sinto muita vontade de te comer.
Alguém bufa, e não sou eu.
Ryle e eu olhamos para a porta, e Allysa está parada, de olhos arregalados. Ela está boquiaberta,
apontando para Ryle.
— Você acabou mesmo de... — Ela olha para mim. — Peço mil desculpas por ele, Lily. — Depois
ela olha para Ryle com uma expressão hostil. — Você realmente acabou de dizer que quer comer minha
chefe?
Ai, meu Deus!
Ryle morde o lábio inferior por um instante. Marshall surge atrás de Allysa e pergunta:
— O que está acontecendo?
Allysa olha para Marshall e aponta para Ryle de novo.
— Ele acabou de dizer que quer comer Lily!
Marshall olha de Ryle para mim. Não sei se quero rir ou me esconder embaixo da mesa.
— Disse isso mesmo? — questiona ele, olhando para Ryle, que dá de ombros.
— Parece que sim — diz ele.
Allysa apoia a cabeça nas mãos.
— Meu Deus! — diz ela, olhando para mim. — Ele está bêbado. Os dois estão bêbados. Por favor,
não me julgue só porque meu irmão é um babaca.
Sorrio e gesticulo para indicar que não tem problema.
— Tudo bem, Allysa. Muitas pessoas querem me comer. — Olho de novo para Ryle, que continua

acariciando meu pé, distraído. — Pelo menos seu irmão fala o que pensa. Poucas pessoas têm coragem
de revelar o que estão pensando.
Ryle dá uma piscadela para mim e depois tira meu tornozelo do colo com cuidado.
— Vamos ver se consegue pisar — encoraja ele.
Ele e Marshall me ajudam a levantar. Ryle aponta para uma mesa encostada na parede, a alguns
metros de distância.
— Vamos tentar ir até a mesa para que eu possa enfaixar esse tornozelo.
Seu braço envolve minha cintura, e ele está segurando meu braço com força para me impedir de
cair. Marshall está mais ou menos parado a meu lado, só para me dar apoio. Eu pouso um pouco o
tornozelo e sinto dor, mas não é forte. Consigo pular até a mesa com o auxílio precioso de Ryle. Ele me
ajuda a subir e me sentar no tampo, até eu me encostar na parede com a perna estendida à frente.
— Bem, a boa notícia é que não está quebrado.
— E qual é a notícia ruim? — pergunto.
— Vai precisar imobilizá-lo por alguns dias — responde ele, abrindo o kit de primeiros socorros.
— Talvez uma semana ou mais, dependendo da recuperação.
Fecho os olhos e encosto a cabeça na parede atrás de mim.
— Mas eu tenho tanta coisa para fazer... — me queixo, choramingando.
Ele começa a enfaixar com cuidado meu tornozelo. Allysa está parada logo atrás, observando o
irmão.
— Estou com sede — diz Marshall. — Alguém quer beber alguma coisa? Tem uma farmácia do
outro lado da rua.
— Estou bem — responde Ryle.
— Eu aceito uma água — digo.
— Um Sprite — pede Allysa.
Marshall agarra a mão da mulher.
— Você vem comigo.
Allysa afasta a mão e cruza os braços.
— Não vou a lugar algum — afirma. — Não dá para confiar em meu irmão.
— Allysa, está tudo bem — asseguro. — Era só brincadeira.
Ela me encara em silêncio por um instante, depois diz:
— Ok. Mas você não pode me demitir se ele fizer mais alguma besteira.
— Prometo que não vou te mandar embora.
Depois disso, ela segura novamente a mão de Marshall e sai. Ryle ainda está enfaixando meu pé.
— Minha irmã trabalha para você? — pergunta.
— Ahã. Eu a contratei algumas horas atrás.
Ele vai até o kit de primeiros socorros e pega fita.
— Você sabe que ela nunca trabalhou na vida, né?
— Ela já me avisou — respondo. Ele está com o maxilar cerrado e não parece tão relaxado quanto
antes. Deve pensar que eu a contratei só para me aproximar. — Eu não fazia ideia de que era sua irmã até
você entrar aqui. Juro.
Ele me olha e depois observa meu pé.
— Eu não estava sugerindo nada.
Ele começa a passar a fita pela atadura elástica.
— Sei que não. Mas prefiro deixar claro que eu não tentei te encurralar de alguma maneira. Nós
queremos coisas diferentes da vida, lembra?
Ele assente e, com cuidado, põe meu pé de volta na mesa.
— Certo — diz ele. — Sou especialista em sexo casual, e você está buscando seu Santo Graal.

Eu rio.
— Você tem boa memória.
— Tenho mesmo — concorda ele, exibindo um sorriso lânguido. — Mas você também é difícil de
esquecer.
Nossa. Ele precisa parar de dizer essas coisas. Apoio as palmas da mão na mesa e ponho a perna
para baixo.
— Uma verdade nua e crua a caminho.
— Sou todo ouvidos — rebate ele, encostando na mesa a meu lado.
Não escondo nada.
— Sinto uma forte atração por você — confesso. — Gosto de quase tudo em você. E como
queremos coisas diferentes, se nos encontrarmos de novo, eu gostaria que não fizesse mais esses
comentários que me deixam tonta. Não é justo.
Ele balança uma vez a cabeça e depois diz:
— Minha vez. — Ele põe a mão na mesa ao lado da minha e se inclina um pouco. — Também sinto
uma forte atração por você. Não tem muita coisa em você que eu não goste. Mas espero que a gente nunca
mais se encontre, porque não gosto do tanto que penso em você. Não é grande coisa, mas é mais do que
eu gostaria. Então, se você continua não querendo passar uma noite comigo, vamos fazer o possível para
evitar um ao outro. Porque não seria bom para nenhum de nós.
Não sei como ele veio parar tão perto de mim, mas está a apenas uns 30 centímetros. Com ele tão
perto, fica difícil prestar atenção nas palavras que saem de sua boca. Seu olhar baixa brevemente até a
minha boca, mas, assim que escutamos a porta da frente se abrir, ele vai para o outro lado do cômodo.
Quando Allysa e Marshall se aproximam, Ryle está empilhando de novo todos os engradados caídos.
Allysa olha para meu tornozelo.
— Qual é o veredito? — pergunta ela.
Faço um biquinho.
— Seu irmão médico disse que devo ficar imobilizada por alguns dias.
Ela me entrega a água.
— Que bom que você tem a mim. Posso trabalhar e adiantar o possível enquanto você descansa.
Tomo um gole d’água e depois seco a boca.
— Allysa, você foi eleita a funcionária do mês.
Ela sorri e se vira para Marshall.
— Ouviu isso? Sou a melhor funcionária do estabelecimento!
Ele põe o braço ao redor da irmã e beija o topo de sua cabeça.
— Estou orgulhoso de você, Issa.
Acho fofo ele a chamar de Issa, um apelido para Allysa. Penso em meu próprio nome e me pergunto
se algum dia vou encontrar um cara que me chame de algum apelido ridiculamente fofo. Illy.
Não. Não é a mesma coisa.
— Precisa de ajuda para chegar em casa? — pergunta ela.
Salto da mesa e testo o pé.
— Talvez só até meu carro. É meu pé esquerdo, então provavelmente vou conseguir dirigir.
Ela se aproxima e põe o braço a meu redor.
— Se quiser deixar as chaves comigo, eu tranco tudo, volto amanhã e começo a limpar.
Os três me acompanham até o carro, mas Ryle deixa Allysa fazer a maior parte das coisas. Por
algum motivo, ele parece ter medo de encostar em mim. Quando já estou acomodada no banco do
motorista, Allysa põe minha bolsa e outras coisas no chão e se senta no banco do carona. Ela pega meu
celular de novo e salva seu número nos contatos.
Ryle se enfia pela janela.

— Coloque o máximo de gelo possível nos próximos dias. Ficar na banheira também ajuda.
Assinto.
— Obrigada pela ajuda.
— Ryle? — chama Allysa, inclinando-se. — Será que você pode acompanhá-la no carro e voltar
para casa de táxi por garantia?
Ele olha para mim e balança a cabeça.
— Acho que não é uma boa ideia — argumenta ele. — Ela vai ficar bem. Tomei algumas cervejas, é
melhor não dirigir.
— Pode pelo menos ajudar ela em casa — sugere Allysa.
Ryle balança a cabeça e dá um tapinha no teto do carro enquanto se vira e sai andando.
Ainda estou o observando quando Allysa me devolve o celular e diz:
— Sério, me desculpe por ele. Primeiro dá em cima de você, depois se comporta como um babaca
egoísta. — Ela sai do carro, fecha a porta e depois se apoia na janela. — Por isso ele vai passar o resto
da vida solteiro. — Ela aponta para meu celular. — Me avise quando chegar em casa. E ligue se precisar
de alguma coisa. Não conto favores como horas de trabalho.
— Obrigada, Allysa.
Ela sorri.
— Não, eu é que agradeço. Não fico tão animada com minha vida desde o show de Paolo Nutini que
vi ano passado.
Ela se despede e se aproxima de Marshall e de Ryle.
Eles começam a andar pela rua, e eu os observo pelo retrovisor. Ao virarem a esquina, percebo
Ryle olhar em minha direção.
Fecho os olhos e solto o ar.
Meus dois encontros com Ryle foram em dias que provavelmente prefiro esquecer. No dia do
funeral de meu pai e no dia que torci o tornozelo. Porém, por algum motivo, sua presença fez esses
desastres parecerem menores.
Odeio o fato de que ele é irmão de Allysa. Tenho a sensação de que essa não é a última vez que o
verei.

Capítulo Quatro
Demoro meia hora para ir do carro até o apartamento. Liguei duas vezes para Lucy; queria sua ajuda, mas
ela não atendeu. Quando entro no apartamento, fico um pouco irritada ao vê-la deitada no sofá com o
celular no ouvido.
Bato a porta, e ela ergue o olhar.
— O que aconteceu com você? — pergunta ela.
Uso a parede como apoio para pular até o corredor.
— Torci o tornozelo.
Quando alcanço a porta de meu quarto, ela grita:
— Desculpe por não ter atendido o telefone! Estou falando com Alex! Eu ia te ligar depois!
— Tudo bem! — grito de volta, e bato a porta do quarto.
Vou para o banheiro e encontro alguns analgésicos velhos guardados no armário. Engulo dois, me
jogo na cama e fico encarando o teto.
Não acredito que vou passar uma semana inteira presa no apartamento. Pego o celular e mando uma
mensagem para minha mãe.
Torci o tornozelo. Estou bem, mas preciso de umas coisas. Pode comprar para mim?
Largo o celular na cama e, pela primeira vez desde que minha mãe se mudou, fico feliz por ela
morar razoavelmente perto. Na verdade, não tem sido tão ruim. Acho que gosto mais dela agora que meu
pai faleceu. Guardei muito ressentimento por ela nunca tê-lo deixado. Apesar de boa parte desse
ressentimento ter passado, o que sinto por meu pai continua.
Não deve fazer bem guardar tanta mágoa do próprio pai. Mas, caramba, ele foi horrível. Comigo,
com minha mãe, com Atlas.
Atlas.
Estava tão ocupada com a mudança de minha mãe, e com minha busca secreta pela loja enquanto
ainda trabalhava, que nem tive tempo de terminar de ler os diários encontrados meses atrás.
Dou um pulo ridículo até o armário e tropeço apenas uma vez. Felizmente, eu me seguro na cômoda.
Depois que pego o diário, volto para a cama e me acomodo.
Não tenho nada melhor a fazer na próxima semana já que não posso trabalhar. Por que não lamentar
meu passado se vou ser obrigada a lamentar meu presente?
Querida Ellen,
Sua apresentação do Oscar foi a melhor coisa que aconteceu na TV no ano passado. Acho que
nunca comentei isso com você. A cena com o aspirador de pó me fez mijar nas calças de tanto rir.
Ah, hoje eu recrutei um novo seguidor para você: Atlas. Antes que comece a me julgar por eu ter
deixado ele entrar de novo em minha casa, me deixe explicar o que aconteceu.
Depois que deixei ele tomar banho aqui ontem, não o vi mais à noite. Mas hoje de manhã ele se
sentou a meu lado no ônibus. Parecia um pouco mais feliz que antes, porque até sorriu para mim
quando se sentou.
Não vou mentir, foi um pouco estranho ver ele usando as roupas de meu pai. Mas a calça ficou

bem melhor que imaginei.
— Adivinha só? — disse ele, inclinando-se para a frente e abrindo a mochila.
— O quê?
Ele pegou uma sacola e a entregou para mim.
— Encontrei isso na garagem. Tentei limpar para você porque estavam empoeiradas, mas sem
água não dá para fazer muita coisa.
Seguro a sacola e o encaro, desconfiada. Nunca vi ele falar tanto. Finalmente dou uma olhada na
sacola e a abro. Parecia um monte de ferramentas de jardinagem.
— Vi você cavando com aquela pá no outro dia. Não sabia se você tinha ferramentas de
jardinagem de verdade, e ninguém estava usando essas aqui, então...
— Obrigada — agradeci.
Fiquei meio chocada. Eu costumava usar uma espátula, mas o plástico do cabo quebrou e
comecei a ficar com bolhas nas mãos. Pedi para minha mãe me dar ferramentas de jardinagem de
aniversário no ano passado, e, quando ela me deu uma pá grande e uma enxada, não tive coragem de
dizer que não era daquilo que eu precisava.
Atlas pigarreou, depois bem mais baixo, disse:
— Eu sei que não é um presente de verdade. Não comprei nem nada do tipo. Mas... eu queria te
dar alguma coisa. Sabe... por ter...
Ele não terminou a frase, então balancei a cabeça e amarrei de volta a sacola.
— Acha que pode ficar com elas até depois das aulas? Não tenho espaço em minha mochila.
Ele pegou a sacola, colocou a mochila no colo e a guardou ali dentro. Depois abraçou a mochila.
— Quantos anos você tem? — perguntou ele.
— Quinze.
Seu olhar deu a impressão de que ele ficou um pouco triste com minha idade, não sei o porquê.
— Está no primeiro ano?
Fiz que sim, porque sinceramente não consegui pensar em nada para dizer. Eu não costumava
interagir muito com garotos. Ainda mais do terceiro ano. Quando me sinto nervosa, simplesmente fico
quieta.
— Não sei quanto tempo vou ficar lá — disse ele, sussurrando de novo. — Mas, se precisar de
ajuda com o jardim ou alguma outra coisa depois da escola, eu não tenho muita coisa pra fazer.
Porque não tenho eletricidade, né?
Eu ri e depois me perguntei se deveria ter rido do comentário autodepreciativo.
Passamos o resto do trajeto de ônibus conversando sobre você, Ellen. Quando ele fez esse
comentário sobre tédio, perguntei se já tinha visto seu programa. Ele disse que gostaria de ver, porque
acha você engraçada, mas para ter TV precisa de eletricidade. Mais uma vez eu ri, sem saber se
deveria ou não.
Eu disse que ele poderia assistir ao programa comigo depois do colégio. Sempre gravo no DVR e
vejo enquanto faço as tarefas domésticas. Pensei em passar o ferrolho na porta da frente, e se meus
pais chegassem cedo, Atlas só precisaria sair correndo pela porta dos fundos.
Não o vi novamente até a volta para casa. Ele não se sentou a meu lado porque Katie subiu no
ônibus antes dele e ocupou o lugar. Eu queria pedir para ela mudar de banco, mas aí ela acharia que
estou a fim de Atlas. Katie ia encher o saco, então deixei ela ficar ali.
Atlas estava na parte da frente do ônibus, então desceu antes de mim. Ele meio que ficou parado
no ponto, me esperando, meio constrangido. Quando saí, ele abriu a mochila e me entregou a sacola
com as ferramentas. Não disse nada sobre o convite que fiz mais cedo para ele ver TV comigo, então
simplesmente agi como se fosse óbvio.
— Vamos — falei.

Ele me acompanhou até dentro de casa, e eu passei o ferrolho na porta.
— Se meus pais chegarem cedo, saia correndo pela porta dos fundos e não deixe que eles te
vejam.
Ele concordou com a cabeça.
— Não se preocupe, vou fazer isso — disse ele, meio que rindo.
Perguntei se queria beber alguma coisa, e ele disse que sim. Preparei um lanche para a gente e
levei as bebidas para a sala. Eu me sentei no sofá, e ele, na poltrona de meu pai. Sintonizei seu
programa, e isso foi basicamente tudo o que aconteceu. Não conversamos muito porque eu adiantei o
vídeo na parte de todos os comerciais. Mas percebi que ele riu nos momentos certos. Acho que
entender o timing para comédia é uma das coisas mais importantes na personalidade de uma pessoa.
Toda vez que ele ria de suas piadas, eu me sentia melhor por tê-lo deixado entrar escondido em minha
casa. Não sei o motivo. Talvez eu me sinta menos culpada quando percebo que poderíamos ser amigos.
Ele foi embora assim que seu programa acabou. Eu queria perguntar se ele precisava tomar outro
banho, mas ficaria muito perto da hora de meus pais chegarem. E a última coisa que eu queria era que
ele saísse correndo pelado pelo quintal.
Mas, ao mesmo tempo, isso seria hilário e incrível.
Lily
Querida Ellen,
Qual é, cara? Reprises? Uma semana inteira de reprises? Entendo que você precise de uma folga,
mas eu queria fazer uma sugestão: em vez de gravar um programa por dia, devia gravar dois. Assim
vai fazer o dobro em metade do tempo, e a gente nunca precisaria ver reprises.
Eu digo “a gente” porque estou me referindo a Atlas e a mim. Ele passou a assistir regularmente
a seu programa comigo. Acho que ele gosta de você tanto quanto eu, mas nunca vou contar que
escrevo para você todos os dias. Ele acharia meio infantil...
Faz duas semanas que ele está morando naquela casa. Tomou mais alguns banhos aqui, e dou
comida para ele sempre que me visita. Até lavo suas roupas enquanto ele está aqui depois do colégio.
Ele fica pedindo desculpas, como se fosse um fardo. Mas, sinceramente, eu adoro. Desse jeito eu me
distraio e até fico ansiosa pelos momentos juntos todos os dias depois do colégio.
Hoje à noite meu pai chegou tarde em casa, o que significa que ele foi para o bar depois do
trabalho. O que significa que ele provavelmente vai brigar com minha mãe. O que significa que ele
provavelmente vai fazer alguma besteira.
Juro que às vezes fico com muita raiva dela por ainda estar com ele. Sei que só tenho 15 anos e
que não entendo todas as razões que a levam a ficar com ele, mas eu me recuso a deixar ela me usar
como desculpa. Não me importa se é pobre demais para sair de casa, nem se a gente teria de se mudar
para um apartamento péssimo e comer miojo até eu me formar. Seria melhor que a situação atual.
Estou ouvindo ele gritar com ela. Às vezes, quando fica assim, eu apareço na sala para ver se ele
se acalma. Meu pai não gosta de bater nela quando estou por perto. Talvez eu devesse tentar fazer
isso.
Lily
Querida Ellen,
Se eu tivesse acesso a uma arma ou a uma faca agora, eu mataria meu pai.
Assim que entrei na sala, eu o vi empurrando minha mãe no chão. Eles estavam na cozinha, e ela
agarrou o braço dele, para tentar acalmá-lo, mas ele a esbofeteou com as costas da mão e a derrubou

no chão. Tenho certeza de que ele ia chutá-la, mas me viu entrar na sala e parou. Murmurou algo para
ela, foi para o quarto e bateu a porta.
Corri até a cozinha e tentei ajudá-la, mas ela nunca quer que eu a veja nesse estado. Então
gesticulou para que eu me afastasse e disse:
— Estou bem, Lily. Estou bem, a gente teve uma maldita briga, só isso.
Ela estava chorando, e já dava para ver a vermelhidão em sua bochecha, onde ele tinha batido.
Quando me aproximei, para ter certeza de que estava bem, minha mãe se virou de costas e agarrou o
balcão.
— Já disse que estou bem, Lily. Volte para seu quarto.
Saí em disparada pelo corredor, mas não voltei para o quarto. Corri até a porta dos fundos e
atravessei o quintal. Eu estava com muita raiva por ela ter sido grosseira comigo. Não queria nem
ficar na mesma casa que os dois, e, apesar de já estar escuro, fui até onde Atlas estava e bati à porta.
Eu escutei ele se movimentando lá dentro, como se tivesse derrubado algo sem querer.
— Sou eu. Lily — sussurrei.
Alguns segundos depois, a porta dos fundos se abriu e ele olhou para além de mim, depois para
minha esquerda e para minha direita. Só quando ele me olhou no rosto percebeu que eu estava
chorando.
— Você está bem? — perguntou, saindo para a varanda.
Usei minha camisa para enxugar as lágrimas, e percebi que ele tinha saído da casa em vez de me
convidar para entrar. Eu me sentei no degrau da varanda, e ele se acomodou a meu lado.
— Estou bem — respondi. — Só estou zangada. Às vezes choro quando fico zangada.
Ele estendeu o braço e colocou meu cabelo atrás da orelha. Gostei disso, e de repente minha
raiva diminuiu. Então, ele pôs o braço a meu redor e me puxou para perto, deixando minha cabeça
apoiada em seu ombro. Não sei como ele me acalmou sem dizer nada, mas foi o que aconteceu. A
simples presença de algumas pessoas acalma, e com ele é assim. É o completo oposto de meu pai.
Ficamos sentados assim por um tempo, até que vi a luz de meu quarto se acender.
— É melhor você ir — sussurrou ele.
Nós dois vimos minha mãe parada no quarto, me procurando. Só naquele instante percebi a vista
perfeita que ele tinha do cômodo.
Enquanto voltava para casa, tentei pensar em todo o tempo que Atlas passara naquela casa.
Tentei lembrar se eu tinha andado alguma vez com a luz acesa durante a noite, porque normalmente,
quando estou no quarto à noite, fico só de camiseta.
E, olha só a maluquice, Ellen: eu torcia para ter feito isso, sim.
Lily
Fecho o diário quando os analgésicos começam a fazer efeito. Amanhã leio mais. Talvez. Ler sobre
as coisas que meu pai fazia com minha mãe me deixa meio mal-humorada.
Ler sobre Atlas me deixa meio triste.
Tento dormir e pensar em Ryle, mas toda a situação me deixa meio zangada e triste.
Talvez eu pense em Allysa, e em como estou feliz por ela ter aparecido hoje. Seria bom ter uma
amiga — e também ajudaria — durante os próximos meses. Tenho a impressão de que vai ser bem mais
estressante do que imaginei.

Capítulo Cinco
Ryle estava certo. Depois de alguns dias, meu tornozelo já havia melhorado o suficiente para que eu
pudesse andar. Mas esperei uma semana inteira antes de tentar sair do apartamento. A última coisa que
quero é me machucar de novo.
Claro que o primeiro lugar visitado foi minha floricultura. Allysa estava lá quando cheguei, e dizer
que fiquei chocada quando entrei na loja é eufemismo. Parecia completamente diferente do
estabelecimento que comprei. Ainda tem muito trabalho a ser feito, mas ela e Marshall se livraram de
todo o lixo. Todo o resto foi organizado em pilhas. As janelas foram lavadas, passaram pano no chão. Ela
até esvaziou a área onde pretendo montar o escritório.
Hoje eu a ajudei por algumas horas, mas no início Allysa não me deixou fazer muita coisa, então
praticamente fiquei planejando a loja. Escolhemos as cores das tintas e definimos uma data para a
inauguração, daqui a aproximadamente cinquenta e quatro dias. Depois que ela foi embora, passei as
horas seguintes fazendo tudo o que minha funcionária não me deixou fazer. Eu me senti ótima por estar de
volta. Mas, caramba, como estou cansada!
Por isso me pergunto se devo ou não levantar do sofá e abrir a porta para quem quer que tenha
batido. Lucy está na casa de Alex de novo, e falei com minha mãe ao telefone cinco minutos atrás, então
sei que não é nenhuma das duas.
Vou até a porta e confiro o olho mágico antes de abrir. Não o reconheço de imediato, porque está de
cabeça baixa, mas então ele olha para cima e para a direita, e meu coração acelera!
O que ele está fazendo aqui?
Ryle bate outra vez, e tento afastar o cabelo do rosto, domando-o com a mão, mas é um caso
perdido. Trabalhei feito louca hoje, e estou horrorosa, então, a não ser que eu tenha meia hora para tomar
uma ducha, passar maquiagem e me vestir antes de abrir a porta, ele simplesmente vai ter de lidar comigo
assim.
Abro a porta, e sua reação me confunde.
— Meu Deus! — exclama ele, baixando a cabeça e a encostando na moldura da porta. Ele está
ofegante, como se estivesse malhando, e então percebo que ele parece tão cansado e sujo quanto eu. Não
faz a barba há uns dois dias, nunca o vi assim, e seu cabelo não foi penteado como de costume. Está um
pouco irregular, assim como seu olhar. — Sabe em quantas portas bati até te encontrar?
Balanço a cabeça, porque não faço ideia. Mas já que ele tocou no assunto... Como sabe onde moro?
— Vinte e nove — diz ele. Em seguida, ergue a mão e repete os números com os dedos enquanto
sussurra: — Dois... nove.
Observo sua roupa. Ele está com o uniforme do hospital, e eu odeio que ele esteja vestindo aquilo.
Caramba. Tão melhor que o macacão pijama e muito melhor que a camisa da Burberry.
— Por que bateu em vinte e nove portas? — pergunto, inclinando a cabeça.
— Você não me disse em que apartamento morava — justifica ele, inexpressivamente. — Disse que
morava neste prédio, mas não consegui lembrar se falou o andar. E, só para constar, quase comecei no
terceiro. Eu teria chegado aqui uma hora antes, se tivesse seguido meu instinto.
— Por que você está aqui?
Ele passa as mãos no rosto e depois aponta por cima de meu ombro.

— Posso entrar?
Olho por cima do ombro e abro a porta mais um pouco.
— Acho que sim. Se me disser o que quer.
Ryle entra e eu fecho a porta. Ele olha ao redor, com seu uniforme hospitalar ridículo e sensual, e
põe a mão nos quadris enquanto me encara. Parece um pouco desapontado, mas não sei se comigo ou com
ele mesmo.
— Lá vem uma grande verdade nua e crua, tá? — diz ele. — Prepare-se.
Cruzo os braços e o observo inspirar, preparando-se para falar.
— Os próximos dois meses são os mais importantes de toda minha carreira. Preciso me concentrar.
Estou terminando a residência, e, depois, são as provas. — Ele está todo agitado, andando de um lado
para outro na sala, falando e gesticulando com as mãos. — Mas, na última semana, não consegui parar de
pensar em você. Não sei por quê. No trabalho, em casa. Só consigo pensar em como é louco estar a seu
lado, e preciso que isso passe, Lily. — Ele para de andar e se vira para mim. — Por favor, faça isso
parar. Só uma vez... É só disso que preciso. Juro.
Estou cravando os dedos nos braços enquanto o observo. Ele continua ofegante, e seus olhos
parecem frenéticos, mas ele me olha de um jeito suplicante.
— Quando foi a última vez que você dormiu? — pergunto.
Ele revira os olhos, como se estivesse frustrado por eu não entender.
— Acabei de sair de um plantão de 48 horas — responde ele, fazendo pouco caso. — Concentre-se,
Lily.
Balanço a cabeça e penso no que ele confessou. Se eu não tivesse uma cabeça boa... eu diria que
ele...
Inspiro para me acalmar.
— Ryle — começo, com cautela. — É sério? Você bateu em vinte e nove portas só para me dizer
que pensar em mim está infernizando sua vida, e que eu deveria transar com você e assim te ajudar a me
esquecer? Está brincando, né?
Ele comprime os lábios e, depois de uns cinco minutos pensando, faz que sim lentamente.
— Bem... sim, mas... exposto desse jeito, parece bem pior.
Dou uma gargalhada exasperada.
— Porque é ridículo, Ryle!
Ele morde o lábio inferior e olha ao redor, como se de repente quisesse fugir. Abro a porta e faço
um gesto para ele ir embora. Mas ele não vai. Apenas olha meu pé.
— Seu tornozelo parece bom — comenta. — Como ele está?
Reviro os olhos.
— Melhor. Consegui ajudar Allysa hoje na loja pela primeira vez.
Ele assente e faz menção de se aproximar da porta. Porém, assim que me alcança, ele se vira e bate
as mãos na porta, cada uma de um lado de minha cabeça. Fico boquiaberta com sua proximidade e sua
persistência.
— Por favor? — i